ADOLFO CASAIS MONTEIRO

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ADOLFO CASAIS MONTEIRO

(1908-1972)

Adolfo Victor Casais Monteiro nasceu na cidade do Porto a 4 de julho de 1908, tendo recebido uma educação liberal, típica da burguesia portuense. Já no meio universitário, influenciado por Leonardo Coimbra, Casais Monteiro publicou, ainda durante a sua licenciatura, o livro de poesia Confusão (1929). Nesse ano, assumiu um cargo na direção da revista A Águia. Em 1931, Casais Monteiro foi recebido na direção da revista coimbrã Presença, que coordenou, ao lado de Gaspar Simões e José Régio, até 1940. Estas revistas ajudaram na divulgação de artistas europeus até à data desconhecidos pelos leitores portugueses. Para além da revista, o escritor portuense foi professor no Liceu D. Manuel II, no Porto. Os seus anos de ensino, porém, duraram pouco tempo, visto que, em 1936, foi afastado do ensino e perseguido devido às suas posições políticas antirregime. Em 1954 foi forçado a abandonar a Europa e a partir para o Brasil, país onde viria a falecer no dia 24 de julho de 1972.

Sendo um homem interessado pela política e pela defesa da dignidade humana, Adolfo Casais Monteiro escreveu os seus versos numa angústia que se intensificou durante a Segunda Guerra Mundial, quando todo e qualquer princípio ético foi posto em causa. Aliás, foi a sua “intervenção cívica de exemplar dignidade” (Sousa 1993a: 23) que lhe valeu o exílio. Mas ainda antes de partir para o Brasil, Casais Monteiro escreveu em tom de protesto uma obra com o título do continente que o viu nascer: Europa (1946). Livro composto por um longo poema sobre o velho continente, foi escrito entre 1944 e 1945 e publicado logo após a segunda Grande Guerra.

Em Europa, o poeta e crítico português confrontou o seu leitor com um sentido ético de “protesto contra a guerra, contra o terror cego, monstruoso e quantas vezes absurdo, das lutas entre povos e nações” (ibidem). Por isso, não admira que Casais Monteiro tenha sentido a necessidade de se expressar, através da poesia, sobre esta grande calamidade. No poema, dividido em cinco partes, começou por descrever uma Europa que necessitava urgentemente de renascer, tal como uma “Fénix, das cinzas” (Monteiro 1946: 127), para mostrar-se em toda a sua glória num “sonho futuro” (ibidem).

Numa clara crítica ao nazismo, Casais Monteiro pergunta: “Europa sem misérias arrastando seus andrajos, / virás um dia? Virá o dia / em que renasças purificada?” (128) e, na estrofe seguinte, responde à questão da seguinte forma: “Europa, tu virás só quando entre as nações / o ódio não tiver a última palavra, / ao ódio não guiar a mão avara” (ibidem). Nestas estrofes, Casais Monteiro descreve uma Europa idealizada por si próprio, uma Europa “sem misérias”, “sem andrajos”, uma Europa purificada e livre da “mão avara”. Este desejo de regeneração estende-se ao longo dos seus versos, que vão descrevendo o estado decadente desse continente. A Europa precisava de se purificar para que não findasse.

O poeta pede redenção para o mal que a Europa causou, mas também deseja que o seu bem, já existente antes da guerra, seja repartido. Assim, esta aparente esperança acompanha o percurso do leitor pelos versos referentes à temática da morte e da destruição causadas pela guerra. Tal disforia ocupa grande parte da obra Europa, apesar de os seus primeiros versos serem de esperança, purificação e renascimento.

Casais Monteiro foi um “Poeta da desesperança e não do desespero” (Rosa 1962: 65-66), que escreveu sobre uma Europa política, cultural e ideológica. Política porque o poeta está perante uma Europa do ódio, em grande parte, pelo poder. A sua revolta contra os homens que mataram inocentes durante o Holocausto é tremenda: “De que são feitos os homens / que queimaram vivos outros homens?” (Monteiro 1993: 132). Quando esta ordem é quebrada, perde-se a “razão de Estado” (ibidem) e, por consequência, as ordens interna e externa, o que põe em risco também os interesses nacionais (como a segurança, a defesa, o prestígio, a independência, entre outros). Mas também estamos perante uma Europa cultural e ideológica, quando Casais Monteiro escreve sobre “esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira” (131) e sobre esta “guerra de fronteiras” (129). Na primeira expressão, a cultura foi relegada para segundo plano em virtude dos interesses políticos. Quando o poeta afirma que existe uma “guerra de fronteiras”, evidencia-se a questão ideológica, devido ao facto de a ideologia ter uma certa resistência à mudança, tentando impor-se como uma referência com que as pessoas e os governos se identificam.

Casais Monteiro não vivenciou de perto o conflito, uma vez que Portugal não esteve envolvido na segunda Guerra Mundial, mas, ainda assim, esta era também a sua luta, ao questionar: “eu que não tenho parentes nem amigos na guerra, / eu que sou estrangeiro diante de tudo isto / (…) – eu porque tremo e soluço?” (131).

Canto da Nossa Agonia (1942) é publicado quatro anos antes de Europa e, embora a referência nunca seja direta, compreende-se, pelas alusões à guerra e pela data de escrita (1939-1941), que esta obra se refere à Guerra Civil Espanhola e ao início da segunda Guerra Mundial: “a reflectir a exacerbação política e ideológica provocada pelos acontecimentos em Espanha (Guerra Civil) e pela eclosão da Segunda Guerra Mundial, deu a público: Canto da Nossa Agonia e Europa” (Sousa 1993b: 222). Para Adolfo Casais Monteiro, estas duas obras são “um todo com princípio, meio e fim” (Monteiro 1959: 150).

Recuando até 1934, a obra Poemas do Tempo Incerto inclui um poema intitulado “Reina a paz em Varsóvia” (1934: 52). Numa época em que se viviam as ondas de choque do fim da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Russa, Portugal já se encontrava sob fortes medidas ditatoriais que impediam a liberdade de expressão. Por isso, neste poema, o sujeito poético revela a sua frustração por desejar falar, cantar e viver, sem poder fazê-lo livremente.

Para terminar esta viagem pela Europa de Adolfo Casais Monteiro, resta-nos olhar para um livro que teve os seus poemas escritos entre 1943 e 1959: Noite Aberta aos Quatro Ventos. Em “Três Poemas de Londres”, o sujeito poético questiona-se quanto à sua nacionalidade: “Talvez, estrangeiro em qualquer parte” (177), sentindo-se um verdadeiro apátrida. Este poeta portuense de ideologias políticas bastante vincadas, apresenta-nos, pois, uma perspetiva da Europa em que tece uma reflexão lírica sobre os (des)limites fronteiriços reais a partir de uma guerra que consequentemente conduz a (des)limites fronteiriços éticos do mais velho continente do mundo.

 

Lista de poemas sobre a Europa

“Europa, sonho futuro!”, Europa (1946)

“Ó morta civilização!”, Europa (1946)

“Na erma solidão glacial da treva”, Europa (1946)

“Eu falo das casas e dos homens”, Europa (1946)

“A música era linda…”, Europa (1946)

“Três poemas de Londres”, Europa (1946)

 

Antologia breve

I

Europa, sonho futuro!

Europa, manhã por vir,

fronteiras sem cães de guarda,

nações com seu riso franco

abertas de par em par!

 

Europa sem misérias arrastando seus andrajos,

Virás um dia? virá o dia

em que renasças purificada?

Serás um dia o lar comum dos que nasceram

no teu solo devastado?

Saberás renascer, Fénix, das cinzas

em que arda enfim, falsa grandeza,

a glória que teus povos se sonharam

– cada um para si te querendo toda?

 

Europa, sonho futuro,

se algum dia há-de ser!

Europa que não soubeste

ouvir do fundo dos tempos a voz na treva clamando

que tua grandeza não era

só do espírito seres pródiga

se do pão eras avara!

Tua grandeza a fizeram

os que nunca perguntaram

a raça por quem serviam.

Tua glória a ganharam

mãos que livres modelaram

teu corpo livre de algemas

num sonho sempre a alcançar!

Europa, ó mundo a criar!

 

Europa, ó sonho por vir,

enquanto à terra não desçam

as vozes que já moldaram

tua figura ideal,

Europa, sonho incriado,

até ao dia em que desça

teu espírito sobre as águas!

 

Europa sem misérias arrastando seus andrajos,

virás um dia? virá o dia

em que renasças purificada?

Serás um dia o lar comum dos que nasceram

no teu solo devastado?

Renascerás, Fénix, das cinzas

do teu corpo dividido?

 

Europa, tu virás só quando entre as nações

o ódio não tiver a última palavra,

o ódio não guiar a mão avara,

à mão não der alento o cavo som de enterro

dos cofres digerindo o sangue do rebanho

– e do rebanho morto, enfim, à luz do dia,

o homem que sonhaste, Europa, seja vida!

 

IV

(…)

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:

as ruas são ruas com gente e automóveis,

não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,

e a miséria é a mesma miséria que já havia…

E se tudo é igual aos dias antigos,

apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir,

eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,

sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,

sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,

uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada…

 

in Europa (1993: 127-133)

 

 

«Três Poemas de Londres»

 

I

 

Talvez, estrangeiro em qualquer parte,

fosse a minha pátria ser livre

no diverso perder-me em todo o mundo…

 

Talvez esta imagem me persiga

até ao fim, de ser nada em toda a parte,

para ser cada novo instante um estrangeiro

que não entende sequer a língua de si mesmo.

Talvez na vida valha só perdermos

a ganhar outro ser em cada coisa

­- e saber algum dia ser ninguém, pousando

sobre a quimera das horas o sorriso

de quem tanto perdeu que nada é mais…

 

II

 

Quantas vezes a vida principia?

Tudo é começar, quando se ama!

Amor de quê? Da névoa e do silêncio

subindo entre o passado e o presente?

ou do claro esvoaçar de um riso

que entre as pálpebras da noite se adivinha?

 

III

 

Dorme na paz provisória

De ser como não haver morte.

 

Não queimes a inocência

de que o dia te vestiu.

Sonha, acordado, sem luto

por tudo ter sempre um fim.

 

Deixa, queimado no porto,

navio do regresso

 

– contigo vai só o vento

que não tem âncora, nem lei.

 

in Noite Aberta aos Quatro Ventos (1993: 177-178)

 
Bibliografia ativa selecionada

MONTEIRO, Adolfo Casais (1993), Poesias Completas, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda.

 

Bibliografia crítica selecionada

ROSA, António Ramos (1962), “Virtualidade e contradição na poesia de Adolfo Casais Monteiro”, in Poesia, Liberdade Livre, Lisboa, Morais Editora: 61-96.

SENA, Jorge (1977), “Três artigos e um poema sobre Casais Monteiro”, in Régio, Casais, A «Presença» e outros afins, Porto, Brasília Editora: 165-188.

SOUSA, João Rui de (1993a),“Um poeta aberto aos quatro ventos”, in Adolfo Casais Monteiro. Poesias completas, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda: 7-24.

—— (1993b), “Resenha Cronológica”, in Adolfo Casais Monteiro. Poesias completas, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda: 221-223.

 

Vanessa Sousa

Como citar este verbete:
SOUSA, Vanessa (2018), “Adolfo Casais Monteiro”, in A Europa face à Europa: poetas escrevem a Europa. ISBN 978-989-99999-1-6.
http://aeuropafaceaeuropa.ilcml.com/pt/verbetes/adolfo-casais-monteiro/