ANNE WEBER

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ANNE WEBER

(1964- )

Anne Weber é uma escritora alemã, nascida em Offenbach (Alemanha), e residente em Paris desde 1983. Traduzindo ela própria as suas obras de francês para alemão, é já autora de uma dezena de textos narrativos ou ensaísticos. Entre eles destacam-se Ida invente la poudre (1998) [Ida inventa a pólvora], Cendres & Métaux (2006) [Cinzas & Metais] e Vaterland (2015).

Com uma obra amplamente elogiada pela crítica, tanto em França como na Alemanha, Anne Weber foi galardoada com o Prémio literário Heimito von Doderer (2004), o Prémio Kranichsteiner (2010) e o Prémio de tradução Johann Heinrich Voß (2016). Aliás, também é na tradução para francês ou alemão de autores alemães ou franceses conceituados que Anne Weber se tem evidenciado, desempenhando desta forma o papel crucial de mediadora cultural entre duas das principais nações e línguas europeias. Entre os autores cuja obra Anne Weber traduziu destacam-se nomes como Marguerite Duras, Éric Chevillard, Pierre Michon, Wilhelm Genazino ou Peter Handke.

Profundamente comprometida na revisitação da história germânica – e forçosamente europeia – do século XX, a obra de Weber culmina num texto atípico e dificilmente classificável, Vaterland (2015) (Ahnen) [Antepassados na auto-tradução para alemão]. Numa abordagem pós-memorial invertida da Shoah, que aponta mais especificamente para a vivência traumática da descendência nazi na terceira ou quarta geração, esta “narrativa” autobiográfica resulta de um trabalho de investigação sobre o passado dos Ahnen (antepassados) de Anne Weber. Se, numa constante da escrita pós-memorial em torno do Holocausto, a geração dos pais nada costuma revelar ou inquirir acerca do envolvimento das gerações anteriores nos dramas que dilaceraram a consciência e o continente europeus, já as terceira e quarta gerações se mostram implacavelmente curiosas.

Assim, pois, ao consultar, em arquivos vários, escritos filosóficos e políticos do bisavô paterno, Florens Christian Rang – que alcunha de “Sanderling” (galinhola) por causa da fisionomia e do modo oscilante do pensamento – Anne Weber procede à inquietante arqueologia da ideologia nazi, aproveitando conceitos glosados por este antepassado, tais como “prussianismo” ou “germanitude”, ou inclusive notas soltas que apontam implicitamente para a ideia de “limpeza étnica”, nomeadamente na Polónia sob ocupação alemã. Com efeito, o bisavô – amigo e correspondente de vultos intelectuais judaicos do virar do século XX, como Walter Benjamin e Martin Buber – produziu um pensamento perigosamente oscilante em relação à superioridade alemã sobre o resto da Europa.
Esta descoberta torna-se tanto mais perturbante quanto o avô paterno de Anne Weber, Ernst Jünger, se havia de revela um nacional-socialista convicto, um grande admirador de Hitler e um funcionário exemplar dos serviços de segurança das SS, tendo ele também deixado algum pensamento escrito.

À medida que se vai confrontando com este acervo desconcertante da autoria do bisavô e avô paternos, Weber vai-se sentindo interpelada e incomodada enquanto cidadã alemã e europeia, pela terrível e histórica convergência ideológica que culminaria no Terceiro Reich. Ora, este mal-estar e este desconforto que dividem e afligem a escritora transferem-se para o presente e questionam a “dificuldade” de ser e afirmar-se alemão hoje no contexto europeu atual.

Com ironia, mas também algum humor ácido, Anne Weber comenta a suposta “supremacia” destinal alemã sobre a Europa, e preconiza a adoção de uma postura humilde e relacional; a mesma que o convívio intelectual do princípio do século XX europeu simbolizava; a mesma que ela própria encarna enquanto escritora e tradutora (mediadora cultural) franco-alemã.

Esta reflexão forçada sobre a história, porventura ainda demasiado recente, da Alemanha acaba por fazer transparecer a Europa como possível superação destes antagonismos e demónios, e a mobilidade intraeuropeia e a tradução como mediações reparadoras.

 

Antologia

“Na sua casa batizada “No fundo de Deus” com empena pontiaguda, Benjamin e Buber vêm visitá-lo amiúde. Juntos concebem um projeto de revista supostamente para aprofundar as ligações entre o cristianismo e o judaísmo. Admito que Emma, a mulher de Sanderling, contasse com uma jovem para ajudá-la na cozinha. Sanderling é o contrário de um epicurista. Come porque o ser humano tem de alimentar-se; admito que até nem beba. Com os olhos vivos, o coração transbordante, está sentado diante do prato intacto sem sequer olhar para ele. Às vezes, esquece-se para que servem o garfo e a faca que segura nas mãos. Benjamin é baixo e redondo. As conversas versam Shakespeare, Hölderlin, a essência da tradução. Falam de uma articulação dura (harte Fügung) para designarem uma certa poesia e um certo modo de a traduzir” (p. 121).

“Passou um século desde a publicação do livro de Scheler. Continua-se a invejar ou a detestar os alemães pela sua motivação no trabalho. O Deutschtum, a “germanitude”, que outrora designava uma forma de espiritualidade própria aos alemães, tornou-se sob o nazismo um Deutsch-Tun, um modo de ser, uma forma de “fazer de alemão”. Mais tarde, após a guerra, torna-se simplesmente um modo de fazer. Made in Germany. Um selo de qualidade. Hoje, pela primeira vez, oiço nesse made in Germany uma exclamação através da qual, ao estigmatizarmo-nos a nós próprios, nos designamos como criminosos e assassinos. Vejam só! Vejam o que foi feito na Alemanha” (p. 145).

 

Bibliografia ativa selecionada

WEBER, Anne (2015), Vaterland, [Ahnen, na auto-tradução alemã], Paris, Seuil, col. “Points”.

 

Bibliografia crítica selecionada

LEYRIS, Raphaëlle (2015), “Anne Weber : ce qu’être allemand veut dire”, Le Monde des Livres, 02-04-2015.

WEBER, Anne (2009), “Une chose arrivée de façon naturelle et inconsciente”, entrevista ao jornal Le Monde, 21-03-2009.

ROBIN, Régine (2003), La mémoire saturée, Paris, Stock.

José Domingues de Almeida

 

Como citar este verbete:
ALMEIDA, José Domingues de (2018), “Anne Weber”, in A Europa face a Europa: prosadores escrevem a Europa. ISBN 978-989-99999-1-6.

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