ANTÓNIO LOBO ANTUNES

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ANTÓNIO LOBO ANTUNES

(1942- )

Escritor português nascido em 1942, em Lisboa. Formado em Medicina Psiquiátrica, exerceu atividade clínica durante a guerra colonial em Angola, e, posteriormente, em Lisboa, no Hospital Miguel Bombarda. Depois da publicação de Os Cus de Judas (1979), tornou-se um dos mais traduzidos e internacionalmente reconhecidos romancistas portugueses contemporâneos; a partir desse romance, que fecha uma trilogia de inspiração autobiográfica, que, com Conhecimento do Inferno e Memória de Elefante, descrevia uma descida aos infernos, desde a experiência da guerra colonial até à perda do amor e ao regresso a um mundo de loucos, Lobo Antunes aperfeiçoa, durante a década de oitenta, uma cada vez maior desenvoltura na subversão das convenções narrativas quer do ponto de vista temático quer formal, o que culminaria com o fulgurante sucesso de Auto dos Danados (1985). O constante cruzamento de vozes e a multiplicação dos pontos de vista, o livre encadeamento dos substratos temporais, a desarticulação da sintaxe narrativa, a metaforização insólita e frequentemente erotizada das descrições, a autorreferencialidade e intertextualidade, a versatilidade de articulação de diversos registos de linguagem e a utilização de um léxico sem censuras, frequentemente agressivo e injurioso, ou a individualização de anti-heróis através dos quais se perspetiva uma realidade abjeta, social, histórica e moralmente degradada, são alguns dos traços que consubstanciaram, desde então, a novidade trazida pela novelística de António Lobo Antunes.

A Europa é citada, geograficamente, através da menção a países e cidades, a três níveis:

-como local de evasão, económica e física, das famílias ligadas ao satus quo do regime salazarista, por exemplo, a família dos sogros do alferes, em Fado Alexandrino, a família de Sofia (mulher de João), em Manual dos Inquisidores, ou a família do patriarca Diogo, em Auto dos Danados.

Neste âmbito, são referidos Espanha (Madride), Suíça (Zurique, Genebra e Lausana), Luxemburgo, Paris e Londres – os últimos quatro como offshores, para transferências de capital, proveniente do património destas famílias terratenentes;

– Espanha é também encarada como um local de fuga para os “grupos terroristas”, quer de extrema-esquerda (Tratado das Paixões da Alma), quer de extrema-direita (Exortação aos Crocodilos) – Corunha -, sendo que, neste último romance, há um acordo tácito entre o regime franquista e esta organização, para, a partir deste território, semear uma contrarrevolução (liderada pela mesma).

Este país pode, ainda, servir como contraponto onírico da realidade vivenciada, nomeadamente em Exortação aos Crocodilos, quando Mimi recorda a sua avó, Mamã Alicia, que afirmava que “na Galiza chove o tempo inteiro e nascem rosas do mar”; por outro lado, Carlos e os outros travestis vão, em Que Farei Quando Tudo Arde?,  para Espanha, na mira de melhorar a sua condição económica, mas voltam igualmente depauperados.

A nível político-civilizacional, encontramos, politicamente, referências frequentes ao comunismo, metonimicamente associado aos “Russos”, aos “ bolcheviques” e “cossacos”, que, com “balalaikas”, iriam invadir Portugal ( é de sublinhar que, amiúde, esta ideologia é referida de uma forma carnavalesca  – caso de Sofia, em Manual dos Inquisidores – , para mostrar o ponto de vista caricatural das classes dominantes do anterior regime em relação àquela corrente política, durante os acontecimentos revolucionários de Abril).

O conjunto de países preteritamente designados por Bloco de Leste são encarados como uma “horda de malfeitores” (Fado Alexandrino).

A União Europeia, ou o embrião desta (a antiga C.E.E), é vista negativamente, dado que, para um grupo terrorista da extrema-esquerda (nomeadamente um seu membro, o Homem), iria favorecer a livre-circulação de pessoas e bens, o que permitiria a extradição de “putativos fugitivos” (Tratado das Paixões da Alma).

Noutra perspetiva, ainda que de uma forma muito tímida, alude-se ao nepotismo que as instituições europeias favoreceriam, quando, na mesma obra, o Juiz de Instrução percebe que “Bruxelas” é um aliciamento de má-fé do Secretário de Estado, em troca da resolução do processo que envolve o referido grupo.

Em termos civilizacionais, surge, pontualmente, uma visão satírica dos europeus, enquanto turistas em Portugal, como “inglesas andróginas” (Memória de Elefante) e “alemães, solitários como choupos deslavados, assentes nas raízes dos chinelos gigantescos de gladiadores romanos” (Auto dos Danados) .

Convém, ainda, referir a presença do judaísmo, ainda que muito circunscrita, nas pessoas de um homem judeu e de sua irmã, fugidos ao Nazismo, no romance Caminho como uma Casa em Chamas.

Por último, a nível cultural, há uma fecunda ocorrência de referências intelectuais a escritores, filósofos, pintores, escultores, cineastas, entre outros – como Marx, Cimabue, Vermeer, Velazquez, Chopin, Debussy, Godard, Fellini, Barthes, Michelet, Engels, Lenine, Giacometti, São Luiz Gonzaga, Agatha Christie, Jean Ferrat, Truffaut,Cézanne, Marco Aurélio, Claudel, Matisse, Van Gogh, Mozart, Marlene Dietrich, Visconti, Toynbee, Dreyer, Marguerite Duras, Schubert, Stendhal, Delvaux, Freud, Tchekov, Corin Tellado, Hitchcock, Dylan Thomas, Rafael Alberti, Melanie Klein, entre outros. A enumeração seria interminável e fastidioso o elenco exaustivo; sublinhe-se que esta profusão se verifica, sobretudo, em obras iniciais, tais como Memória de Elefante ou Explicação dos Pássaros). Estas referências operam a três níveis: utilização de índole comparativa, no seio do universo diegético, como, por exemplo em “tardes (…) perfeitas de cor e luz, como um quadro de Matisse(…)” (Memória de Elefante); transfiguração do real ( por exemplo, Leslie Caron e cenários do filme Gigi como fuga feérica, em contraste com o consultório de Nuno, em Auto dos Danados) e sentido paródico com visão alternativa da História oficial, como é o caso das personagens do poeta Frederico Garcia Lorca e o do cineasta Luis Buñuel tidos por passadores ciganos (As Naus).

Numa derradeira nota, chame-se a atenção para a contingência de citação de outras obras, muito embora se tenha feito a análise dos tópicos supra tendo-as em conta, pelo que se procede à sua indexação no item da “Bibliografia Ativa”.

 


Antologia


Bibliografia ativa selecionada

Memória de Elefante, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2004 [1979].

Os Cus de Judas, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2004 [1979].

Conhecimento do Inferno, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2004 [1980].

Explicação dos Pássaros, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2004 [1981].

Fado Alexandrino, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2007 [1983].

Auto Dos Danados, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2005 [1985].

As Naus, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2006 [1988].

Tratado das Paixões da Alma, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2005 [1990].

A Ordem Natural das Coisas, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2010 [1992].

A Morte de Carlos Gardel, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2008 [1994].

O Manual dos Inquisidores, Lisboa, Publicações Quixote, 2005 [1996].

O Esplendor de Portugal, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2007 [1997].

Exortação aos Crocodilos, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2007 [1999].

Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2008 [2000].

Que Farei Quando Tudo Arde?, Lisboa, Publicações Publicações Dom Quixote, 2008 [2001].

Boa Tarde Às Coisas Aqui em Baixo, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2008 [2001].

Eu Hei-de Amar Uma Pedra, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2004.

Ontem Não Te Vi em Babilónia, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2006.

O Meu Nome é Legião, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2007.

O Arquipélago da Insónia, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2008.

Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2009.

Sôbolos Rios que vão, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2010.

Comissão das Lágrimas, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2011.

Não É Meia Noite Quem Quer, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2012.

Caminho Como Uma Casa Em Chamas, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2014.

Da Natureza Dos Deuses, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2015.

Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2016.


Bibliografia crítica selecionada

 

 

Susana Guimarães

 

Como citar este verbete:
GUIMARÃES, Susana (2017), “António Lobo Antunes”, in A Europa face a Europa: prosadores escrevem a Europa. ISBN 978-989-99999-1-6.
http://aeuropafaceaeuropa.ilcml.com/pt/verbetes/antonio-lobo-antunes/