DAVID VAN REYBROUCK

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DAVID VAN REYBROUCK

(1971-)

David Van Reybrouck tem um percurso científico e cultural multifacetado. É antropólogo, arqueólogo, historiador, cronista, ensaísta, mas também dramaturgo e ficcionista belga de expressão neerlandesa. Oriundo de uma família flamenga católica, cursou filosofia e arqueologia em Lovaina, tendo enveredado pela antropo-zoologia, área científica em que publicou alguns estudos de reconhecido relevo.

Em 2007, rompe definitivamente com o ensino universitário e a investigação científica, dedicando-se inteiramente à escrita literária e ensaística. Publicou várias obras em neerlandês, que foram sendo traduzidas para francês: Le Fléau [O Flagelo] (2008); Mission [Missão] (2011); Dans le maïs [No milho] (2012) e Congo, une histoire [Congo, uma história] (2012), ensaio premiado com o Prémio Médicis, em que revisita aspetos do passado colonial belga no Congo.

O ensaio Contre les élections [Contra as eleições] (2014) causou alguma polémica num país dificilmente governável, como é o reino da Bélgica, ao preconizar apaixonadamente o regresso à prática antiga do sorteio como possível recurso para revigorar as democracias contemporâneas onde os sistemas eleitorais dão sinais de esgotamento.

Em 2016, num contexto europeu profundamente marcado pelos atentados terroristas, publica com Thomas d’Ansembourg um ensaio pedagógico, La Paix, comment l’apprendre? [Como aprender a paz?] em que preconiza o ensino da paz ao mesmo título que outras matérias escolares, como parte integrante do desenvolvimento social sustentável, e como forma de cultivar uma interioridade cidadã.

Em 2016, David Van Reybrouck publica um romance, num misto de documentário e de ficção, intitulado Zinc [Zinco], em que as suas ideias políticas utópicas e algo populistas de uma governação autogerida encontram um espaço geográfico e um tempo histórico na pequena aldeia fronteiriça de Moresnet-Neutro, um pequeno município germanófono definitivamente anexado pela Bélgica desde o Tratado de Versalhes (1919), mas cujo estatuto autónomo foi sendo até lá respeitado pela Alemanha (Prússia) e pelos Países Baixos, a que se juntou a Bélgica depois da fundação deste reino em 1830. Território disputado e reivindicado por esses três estados europeus, Moresnet-Neutro metaforiza e condensa uma certa ideia de Europa fronteiriça, de região liminar e confinal entre as áreas germânica e latina da Europa, herdeira do território intermédio e central da antiga e mítica Lotaríngia pós-carolíngia: “Une sombre excitation à l’idée de franchir une frontière?”.

Zinc, que venceu o Prémio do Livro Europeu 2017 na categoria “romance” – um galardão instituído pelo Parlamento Europeu no intuito de fomentar a adesão ao espírito e projeto europeus –, propõe-se revisitar e desenterrar toda uma história esquecida e conflitual da construção europeia, mas revela também um caso único e esporádico de convivência e de autogestão transfronteiriça e trans-étnica no seio do Velho Continente.

Com efeito, o estatuto neutral e indefinido de Moresnet-Neutro, mantido entre 1816 e 1919, muito devido à presença de uma importante e antiquíssima mina de zinco na aldeia (La Calamine) cobiçada pelos estados limítrofes, permite a Van Reybrouck ilustrar historicamente as suas teorias políticas de democracia direta ou de compromisso político local improvisado: “Le compromis consistait en une absence de compromis (…). Cette zone devenait territoire neutre”.

A construção do romance alia a investigação histórica e documental, a recolha de testemunhos de habitantes locais e a ficção pura. Com efeito, Zinc ficcionaliza a vida de Maria Rixen, uma jovem empregada doméstica de Düsseldorf do início do século XX que, por ter engravidado do patrão, se vê forçada ao exílio, escolhendo o território neutro de Moresnet como abrigo:

Elle peut prendre le train jusqu’à Cologne en longeant le Rhin vers le sud, puis obliquer vers l’ouest à travers l’Eifel, en direction d’Aix-la-Chapelle. De là, elle peut gagner le territoire neutre, huit kilomètres plus loin. Il n’est pas grand, elle le sait, pas plus de 1347 arpents prussiens, mais dans ce minuscule État de Moresnet-Neutre, on se sent moins coincé que dans l’étendue de la Prusse. Il y a d’autres filles qui s’y sont réfugiées, venues d’Allemagne, de Belgique, de Suisse même. On les y laisse en paix.

O nascimento do filho, Joseph Bixen (entretanto rebatizado Emil), nessa comarca sem estatuto, faz dele um “neutro”, sendo que “cette (…) catégorie est réservée aux descendants des habitants d’origine”, e envolve-o na tragédia da Primeira Guerra Mundial que se abate sobre a Europa, e sobre o território transfronteiriço de Moresnet em particular. Nessa altura, a população divide-se, tomando partidos diferentes consoante as circunstâncias pessoais e familiares: “J’essaie de me représenter les conversations, les tensions et les silences de l’époque”.

Ora a Alemanha anexa esse território germanófono que considera seu, e os jovens são imediatamente mobilizados:

Dans les territoires annexés, plus de 9000 hommes furent mobilisés, 3400 d’entre eux furent tués au combat ou portés disparus, 1500 autres allaient en revenir invalides de guerre. Le sursaut de sentiments pro-allemands n’avait été qu’une flambée sans lendemain. Belgique ou Allemagne ? La région frontalière était orpheline, démunie et, tout comme Emil, privée de parents à qui se fier.

No Tratado de Versalhes, Moresnet-Neutro, que chegou a ser um centro de divulgação da língua esperanto, é oficialmente integrado ao reino da Bélgica até à Segunda Guerra Mundial. Novamente anexado pela Alemanha nazi, tal como o conjunto do território belga, volta a ser um palco de confronto e de dilaceração identitária. Novamente, os belgas germanófonos são forçados a combater ao lado dos alemães. Emil deserta, vagueia pelo antigo território neutro até à libertação pelos aliados. Mas a sua história pessoal torna-o irremediavelmente suspeito. De que lado esteve, está?

Nos anos cinquenta, a mina de zinco, economicamente pouco rentável, é desativada enquanto Moresnet integra definitivamente a comunidade germanófona da Bélgica.

Zinc apresenta assim uma leitura singular da história do Velho Continente que remete para dois temas prementes da atualidade: a crise da utopia e do projeto europeus, e o regresso das fronteiras enquanto materialização no terreno do ressurgimento dos nacionalismos e dos egoísmos identitários.

 

Antologia

Durante a guerra, o minúsculo triângulo formado por Moresnet-Neutro foi objeto de uma vigilância muito apertada. Os alemães queriam absolutamente acabar com o contrabando, ou impedir os belgas de utilizar o território neutro para chegarem aos Países Baixos, e de lá juntarem-se às tropas reunidas na Flandres Ocidental. Menos de um ano após a invasão, a 27 de junho 1915, o ocupante decretava que Moresnet ficasse doravante sob a alçada das autoridades alemãs. Essa situação havia de durar três anos (p. 42).

Sem ter mudado de casa uma só vez na vida, ele [Emil] foi sucessivamente cidadão de um Estado neutro, súbdito do Império alemão, habitante do reino da Bélgica e cidadão do Terceiro Reich. Antes de voltar a ser belga, o que seria a sua quinta mudança de nacionalidade, é feito prisioneiro de guerra alemão. Ele não chegou a atravessar fronteiras; foram as fronteiras que o atravessaram (p. 63).

Ei-lo aí, Emil, no meio de soldados alemães e de antigos nazis, ele que deu ao filho o nome do rei dos belgas [Leopold], e cuja mulher recusou a Mutterkreuz [cruz de honra atribuída às mães alemãs pela Alemanha nazi]. Ei-lo, ele, o homem que participou na ocupação da Alemanha com o uniforme belga, e à da Bélgica com o uniforme alemão; ele, a criança adulterina, o homem cuja identidade, qual bloco de minério de zinco, foi fundida, e fundida de novo, tantas vezes, até daí resultarem desapego e resignação (p. 65).

 

Bibliografia ativa selecionada

Van REYBROUCK, David (2016), Zinc [tradução do neerlandês: Ph. Noble], Arles, Actes Sud.

 

Bibliografia crítica selecionada

ALMEIDA, José Domingues de (2011), “Une littérature francophone du dedans. Approche de l’imaginaire de l’entre-deux et du mythe lotharingien dans la poétique de Jean-Claude Pirotte et de Michel Louyot”, Le Langage et l’Homme, nº XXXXVI, pp. 137-141.

DELVAUX, Béatrice (2017), “David Van Reybouck: ‘Une frontière, ce n’est ni un bien, ni un mal, c’est une tragédie’”, Le Soir, 07-12-2017.

DUPLAT, Guy (2016), “David Van Reybrouck sur tous les fronts”, La Libre Belgique, 06-12-2016.

— (2017), “David Van Reybrouck reçoit le prix du livre européen pour son enquête ‘Zinc’”, La Libre Belgique, 07-12-2017.

 

José Domingues de Almeida

 

Como citar este verbete:
ALMEIDA, José Domingues de (2018), “David van Reybrouck”, in A Europa face a Europa: prosadores escrevem a Europa. ISBN 978-989-99999-1-6.
http://aeuropafaceaeuropa.ilcml.com/pt/verbetes/david-van-reybrouck/