EDUARDO LOURENÇO

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EDUARDO LOURENÇO

(1923 – )

Natural de São Pedro do Rio Seco, aldeia do concelho de Almeida do distrito da Guarda. Com mais de três dezenas de títulos originais, Eduardo Lourenço tem-se destacado, no panorama da literatura e do pensamento em língua portuguesa, como filósofo e ensaísta.

O tema da Europa ocupa, desde sempre, um lugar relevante na obra literária lourenciana, como assinalaram, entre outros, Miguel Real e João Tiago Lima. Podemos mesmo afirmar que pertence a um dos capítulos principais das chamadas “mitologias lourencianas” (Cruzeiro 1997: 76). No ensaio sintomaticamente intitulado “Europa ou o diálogo que nos falta”, do livro de estreia Heterodoxia (1949), o jovem filósofo situa a Europa no centro da História e da Cultura ocidentais, apontando já, porém, para o facto de a sua solidez de outrora se encontrar “fragmentada caoticamente” (1987:11). Uma outra característica do ensaísmo lourenciano é refletir a posição de Portugal – quase sempre em conjunto com a vizinha Espanha– em relação à Europa para lá dos Pirenéus, aí evidenciando o papel da França que, sobretudo a partir da Geração de 70, se transmuda em paradigma cultural e civilizacional. São os tempos da “jangada de pedra” da visão ibérica lourenciana. A ausência de diálogo com a Europa, indicada no título do ensaio inaugural, interage com o diagnóstico negativo sobre a cultura portuguesa no concerto das nações europeias mais evoluídas, posição marginal que espelha a “existência crepuscular” de Portugal nos últimos quatro séculos. Na perspetiva de Eduardo Lourenço, a Europa encontra-se entre parêntesis da II Guerra Mundial em diante, dividida na ordem política, militar e geográfica estabelecida pelas duas superpotências do tabuleiro mundial: os Estados Unidos da América e a antiga União Soviética, pelo que também o epicentro cultural se deslocou do espaço europeu, nomeadamente da França, para o “americano-Ocidental” (vd. 1990: 54). É o tempo da Europa desencantada e sem um mito orientador nem uma ideologia preponderante.

Para Eduardo Lourenço, a marginalização peninsular inicia-se verdadeiramente no tempo de Voltaire e Montesquieu. No período anterior, o de Descartes e Pascal, entende que o espaço e o tempo ibéricos de Cervantes, Quevedo, Gracián e Vieira dialogam ainda com a Europa transpirenaica, sem qualquer ressentimento ou emulação. São as duas culturas ou “as duas razões” – cartesiana e barroca – do ensaio “Nós e a Europa ou as duas razões” que dá o título à sua primeira coletânea de ensaios sobre o diálogo de Portugal (e de Espanha) com a outra Europa: a de Descartes, Hume e Kant. Estamos, afinal, perante duas visões separadas geográfica e culturalmente, mas que ainda “comunicam entre si como nunca mais comunicarão, enquanto dupla resposta a uma só crise de imagem tradicional do mundo, a da imagem realista herdada da Idade Média.” (idem: 63). Na análise de Eduardo Lourenço torna-se, porém, notório o antagonismo entre a Europa da Reforma, com as suas “luzes” e o saber científico, e a da Contrarreforma, “menos luminosa e, nos momentos mais pessimistas, [observada] como quase ‘ausência de luz’” (1990: 61).

O fim da Europa enquanto potência mundial surge, para Eduardo Lourenço, em Suez “sob o duplo ultimatum dos Estados Unidos e da União Soviética” (2001: 34). Com a espantosa derrota do Bloco de Leste, liderado pela União Soviética, derrota marcada simbolicamente pela derrocada do Muro de Berlim, em 1989, a Europa transmuda-se num continente crepuscular e, “pela primeira vez, desde a Revolução Francesa, [num] continente sem ideologia.” (2001: 132). O desaparecimento do Império Soviético e a implantação da pax americana marcam o fim de um mundo e, sobretudo, de uma utopia que alimentou uma parte considerável do pensamento ocidental do século XX, anunciando uma nova ordem e exacerbando o papel marginal da Europa após a invasão do Koweit por Saddam Hussein. A vitória norte-americana na Guerra do Golfo não clarificou, nem muito menos apaziguou a crise do Próximo Oriente. Comprovou somente, se dúvidas houvesse, que não é possível traduzir a democracia ocidental, em versão americana, para língua árabe.

A Guerra do Golfo foi, então, o “segundo Suez da Europa”, como assinala o título de um brilhante ensaio de Eduardo Lourenço. Este conflito provocou a “maior derrota da Europa – de toda a Europa, de Lisboa a Moscovo – desde a tomada de Constantinopla” (2001: 22-23) que nele tomou parte apenas para servir os “donos do jogo” norte-americanos na sua cruzada sem qualquer sentido. Ora o “‘tempo’ islâmico é um tempo longo. Longa é a memória – falsa e verdadeira – de esplendores abássidas, hoje obsessivos para milhões de muçulmanos partilhados entre a natural reivindicação da sua dignidade e o ressentimento. Foi nessa engrenagem, deles melhor conhecida do que dos americanos, que muitos europeus hesitaram em meter os dedos. É de temer que tenha sido um gesto inútil e que daqui em diante a espiral do ressentimento islâmico se transforme num pesadelo para o mundo ocidental como se voltássemos, de tapete voador, aos tempos de Saladino ou Solimão II.” (2001: 72). Contrariamente ao amigo Vergílio Ferreira, que defendeu, desde a primeira hora, a intervenção americana no longínquo Koweit, o autor de Nós e a Europa ou as Duas Razões analisou doutro modo o “tempo islâmico” e as consequências que a humilhação infringida ao Iraque pelos Estados Unidos da América provocarão no espaço europeu. Os atuais atentados terroristas, sem ética e sem nenhuma ligação possível com o niilismo – atentados perpetrados, no coração da Europa, sob a bandeira negra do Daesh –, e os milhares de refugiados que todos os dias procuram um porto seguro nos principais países europeus vão ao encontro, infelizmente, dos trágicos prognósticos formulados por Eduardo Lourenço imediatamente após o ultimato norte-americano a Saddam Hussein em 1990.

O autor de A Europa Desencantada observa ainda, com apreensão, os novos perigos que a Europa enfrenta. Os nacionalismos emergentes, dentro e fora do espaço europeu comunitário, a revolução biológica e, sobretudo, a “peste branca” assente num “reflexo suicidário antinatalista [que tem atualmente] proporções catastróficas” (2001: 40), em conjunto com a revolução tecnológica que vem preparando uma futura “legião de desempregados” (ibidem), oferecem ao espaço europeu uma “atmosfera de ‘fim do mundo’ ou promessa de outro em relação ao qual nós temos já a consciência de ser meros ‘mutantes’” (idem: 40-41).

De qualquer maneira, Eduardo Lourenço é um europeísta convicto e um defensor da construção europeia, sempre presente no seu discurso mítico. Por isso considera que “não se vive em parte nenhuma do mundo melhor do que na Europa (…) e isto a todos os níveis.” (2014: 119-120). A Europa e a sua cultura de inquietação, “da angústia e da dúvida” (1990: 159) continuam a ser, pois, apesar da carência de mitos contemporânea e das constantes ameaças ao espírito europeu, o espaço por excelência para a liberdade e para a reflexão do lugar do homem no mundo e no seu tempo. Resta-nos, pois, celebrar Camões, Montaigne, Shakespeare, Kierkegaard, Pessoa, Camus, entre tantos outros luminares do contentamento europeu e aceitarmos “o risco de ser ‘europeus’, de uma nova espécie, cidadãos de uma Europa mediadora e aberta sobre o mundo porque dona em sua casa.” (2001: 31).
 

Antologia:

“Por isso a primeira e fundamental das exigências do espírito europeu é a liberdade. Fundamento concreto da possibilidade de actos humanos valiosos, a liberdade é a própria forma da exigência humana quando pode dispor conscientemente da mesma. Os sofistas, obscura ou claramente interessados na defesa de qualquer espécie de tirania, acharam sempre oportuno afirmar, como o Trasímaco da República ou o inesquecível Caliclés do Górgias, que a liberdade é um conceito vazio de sentido. Aterrorizados mentalmente com a tensão de grandeza implicada no seu exercício, preferem negá-la. Mas nenhuma tirania foi jamais suficientemente honesta ou forte, para confessar em público aos seus súbditos que eles não são livres.” (1987:12).

“o que é a Europa? Enquanto realidade política, quase nada, enquanto realidade cultural, quase tudo. Mas a fórmula podia inverter-se: enquanto realidade política, alguma coisa, enquanto realidade cultural, quase nada. Neste último caso, a fórmula supõe um acrescento: é enquanto ‘realidade cultural’, comunitariamente participada, que a Europa é (ainda) pouca coisa. (…) se esse espaço não for o de uma cultura que mereça ainda ser chamada, vivida e desenvolvida como cultura europeia, isso significaria que a Europa será um envólucro vazio, uma realidade sem alma, nem memória. Uma Europa cortada da sua relação com os valores culturais que criou, indiferente à sua herança e à sua riqueza cultural, será apenas uma Disneylândia para a nossa pseudo-infância de europeus.” (1990: 157)

“Cercado como a antiga Jericó, Saddam Hussein já devia ter caído. Mas se não cair ‘de dentro’ – o que os Estados Unidos esperam desde Agosto – o famigerado ‘carrasco de Bagdad’ cairá como um herói do mundo islâmico, Saladino e D. Sebastião ao mesmo tempo. para o Ocidente, que assume minimamente as razões pelas quais está no Golfo, a causa de Saddam Hussein é boa para o islão. E nisto reside a tragédia, não só política e militar desta ‘guerra branca’, mas a tragédia cultural, a de um absurdo, por evitável, alargamento do fosso que historicamente tem separado o Ocidente do islão. E isto, precisamente numa altura em que o dito ‘Ocidente’, fora do seu tesouro, não sabe quem é, nem onde está. Mesmo nos seus mais condenáveis ou catastróficos confrontos com o islão, o Ocidente sabia, ao menos, porque estava lá, em Jerusalém, em Tunis, em Tânger, em Alcácer Quibir, em São João d’Acre.” (2001: 65)
 

Bibliografia ativa selecionada

LOURENÇO, Eduardo (1987), Heterodoxia I & II, Assírio & Alvim.

— (1990), Nós e a Europa ou as Duas Razões, 3.ª ed., Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

–(1991), L’ Europe Introuvable – Jalons pour une mythologie européene, Paris, Éditions A.M. Métailié.

— (2001), A Europa Desencantada , Gradiva.
 

Bibliografia crítica selecionada

BAPTISTA, Maria Manuel (2003), Eduardo Lourenço – A Paixão de Compreender, Edições Asa.

CRUZEIRO, Maria Manuel (1997), Eduardo Lourenço – O Regresso do Corifeu, Lisboa, Editorial Notícias.

LETRIA, José Jorge (2014), Eduardo Lourenço: A História é a Suprema Ficção – entrevista de José Jorge Letria a Eduardo Lourenço, Guerra e Paz.

LIMA, João Tiago (2013), Falar Sempre de Outra Coisa – Ensaios Sobre Eduardo Lourenço, CEI / Âncora Editora.

REAL, Miguel (2008), Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa, Quidnovi.

 

Jorge Costa Lopes

 

Como citar este verbete:
LOPES, Jorge Costa (2017), “Eduardo Lourenço”, in A Europa face a Europa: prosadores escrevem a Europa. ISBN 978-989-99999-1-6.
http://aeuropafaceaeuropa.ilcml.com/pt/verbetes/eduardo-lourenco/