MARIA de Fátima Bívar VELHO DA COSTA

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MARIA de Fátima Bívar VELHO DA COSTA

(1938- )

 

Apostada numa escrita ativa, que indaga e leva a indagar sobre o que nos move, Maria Velho da Costa vai elaborando uma tessitura textual onde a sua paixão pelo mundo da escrita se articula com uma escrita do mundo. A autora reparte-se pela escrita ficcional, cronística e dramática, com algumas incursões pela poesia, de que as obras Corpo Verde e Da Rosa Fixa são os exemplos mais expressivos.

É espraiado por esta diversificada tipologia textual que o mundo se vai escrevendo, em registo mais ou menos disruptivo, e que a autora, às vezes entregando a voz enunciativa a uma miríade de personagens, vai problematizando as relações humanas e a vivência dos afetos, e indagando do que “nos comove e move para onde” (1994a:11).

O seu percurso de vida, marcado por experiências de deslocação na Guiné Bissau, em Cabo Verde e em Londres, onde esteve sensivelmente seis anos como Leitora no Departamento de Literatura Portuguesa do King’s College, forneceu-lhe um distanciamento de Portugal que propiciou uma visão mais aguçada e acutilante relativamente à condição dos portugueses no mundo, ao seu devir, à relação de Portugal com a Europa e à forma como, numa deambulação que a autora considera errática mas competitiva, o país vai frustrando desígnios que deveriam ser globais.

A estada em Inglaterra, de que resultaram as crónicas de O Mapa Cor de Rosa, enviadas para publicação no jornal A Capital, proporcionou à autora uma perspetiva sobre a Europa, pela bitola de uma potência que não sabia, ou não queria, soltar-se da sua condição e tradição imperiais, insistindo num individualismo neurótico e num snobismo classista de estereótipos desajustados face aos novos tempos e às novas realidades sociais (1984:147), que se queriam integradoras e fecundantes de uma mentalidade mais aberta e exaltante, direcionada a um devir dos povos mais autónomo e criativo.

Desse patamar de observação, o cenário que se vislumbrava era o de uma Europa economicista, fútil e consumista, em crise iminente, esfacelada e à deriva, sem capacidade para resolver a crise de emprego, da economia e das assimetrias sociais, sem coragem nem desígnio global a longo prazo, erigindo o verbo adiar em mote programático descomprometedor (idem:113). E a Inglaterra era bem o símbolo desse vício de mandar que, já em 1975 a autora denunciava nas crónicas de Cravo, por entender estar este a contaminar os países europeus mais poderosos, essa “Europa Rica” (1984a:92) onde se incluía a França, que a escritora criticava também com frequência.

Numa altura (anos 80) em que se preparava a adesão de Portugal ao Mercado Comum Europeu, o olhar de Maria Velho da Costa é aguçado e implacável: a integração europeia não é mais do que um engodo fácil de melhoria imediata de nível de vida e a diluição final de um país num espaço geográfico de uma «Europa Livre» (idem:84) que sugou mão-de-obra e amor-próprio e fomentou, muitas vezes por um saudosismo colonialista, o comportamento subserviente e a autocomiseração dos países mais pobres, como Portugal (idem:83).

Esta Europa que corrói e abusa é, pois, olhada com descrédito e despeito, e esbate a exaltação que a revolução de abril desencadeara. De facto, Maria Velho da Costa reage com inconformismo à falta de arrojo português e mostra-se intrigada com os equívocos de muitos, que insistem em exaltar o que a autora considera uma amálgama absurda e autodestrutiva, a de confundir-se no mesmo lance os conceitos de Pátria, Europa, Fé e Ocidente (idem:104).

Nas crónicas d’ O Mapa Cor de Rosa, Maria Velho da Costa não isenta de culpas os cidadãos, reprovando-lhes a apatia e ausência de massa crítica. Os comportamentos que observa em Inglaterra, e que generaliza a outros povos europeus, são os da atrofia de uma aceitação passiva do que acontece, numa atitude acrítica de constatar a ocorrência e «consumi-la», demitindo-se do desejo de uma real autodeterminação. Considerando embora que tal realidade seja difícil de dizer e de assumir pela acomodação a uma atitude servil que atrofia e incentiva ao desleixo (1984:195), MVC conhece-lhe os riscos nesse «acordar das Fúrias» com que designa os sinais crescentes de carência e de violência que vai observando no quotidiano inglês e nos relatos que lhe chegam de outros países, a braços com acentuadas assimetrias socioculturais e económicas, de consequências devastadoras na coesão social.

A tinta carrega-se no romance Irene ou o contrato social, onde a Europa se apresenta como a “escória de um continente” (2001:112), sem rumo, desapiedada e arrogante, e sem competência para gerir e viver os afetos. Nesta Europa, é fácil camuflar a identidade de Orlando e dissolvê-lo na massa anónima dos trabalhadores clandestinos e indiferenciados, desde que se percebam os tiques e as malhas de cada país e se adeque a máscara ao contexto (idem:111). Nela é igualmente fácil exibir a impunidade em alto estilo, revestida a luxo frio e desafeição. O acrónimo WASPS (White Anglo Saxon Protestants), abrangendo também a cultura e organização norte-americana, é a marca do despeito por uma cultura desapiedada, cega e arrogante, sem competência humana para entretecer laços e se dignificar em “contratos” sólidos e construtivos, que não os de uma solidariedade desencantada e derrotista, que encontra a sua expressão na aplicação da eutanásia, que é também um gesto de autoflagelação de quem sente trazer consigo a “gangrena de nações” (idem: 176).

Em contraste com esta Europa mortuária, fechada sobre si mesma, Maria Velho da Costa oferece na sua ficção a experiência da travessia para novas configurações civilizacionais. África, por exemplo, parece surgir nos seus textos como solução de vitalidade e refrescamento, num exercício de descentramento e miscigenação capaz de abrir novas vias relacionais (idem:112). Algumas das suas personagens mestiças (veja-se Ângelo, de Casas Pardas, ou Orlando, de Irene e Myra) parecem sugerir que é pelo trânsito entre raças, culturas e línguas que se abrem linhas de fuga e se constituem novos interfaces múltiplos e dialogantes. A escrita desassossegada e desviante da autora, e a sua apologia do crioulo galáctico, são elas próprias uma solicitação contínua de deslocação e de defesa do paradeiro em detrimento da morada, um convite permanente à reconfiguração.


Antologia:

“Porque estamos numa terra e numa hora em que todos aqueles que têm força a fazem para a conservarem ou ser mais. Onde os governantes protegem os ricos e engodam os pobres, sem servir afinal a nenhuns, porque os ricos vão apodrecer de aborrecimento e de estrangeiros de alma e os pobres vão tentar ser gente como lhes ensinam e estrangeiros para outras terras. Onde há uma guerra que não aproveita muito nem a ricos dos de cá, nem nada a pobres dos de lado nenhum e que continua só pelo medo miudinho de tomar qualquer das decisões para pará-la – ou discutir e criar com os pobres como nós mas armados e com fés novas, ou vendê-la de vez a quem der mais. Porque é tudo uma hesitação neste regime de serventes nem se sabe de quens, cada vez mais maiores de tão diversos e desencontrados, que ora abre torneirinhas aqui para as fechar acolá, nos critérios de censura ou repressão, nas habilidades de liberais muito europeus que manda fazer para desistir, nos grupos que deixa crescer até não serem só para fazer de conta.” (Cravo, 27)

“Perdidos em querelas de parentes pobres face a uma herança incerta, diminuídos pelo vício cortesão e nacional de bajular o alheio, falando pernóstico como nos mandou o império de França e indo às massas com os jeans mentais do uniforme da liberdade made in USA, tementes de resgatar agora para bom fim esse filão fecundo com que os tiranos sempre engodaram este povo – o seu desejo de diferença e arrojo face à Europa – eis que em nome de um realismo que é só pobreza de ver, em nome de uma libertinagem nomeada liberdade, nos rosnamos de alto e difícil à espera que isto sossegue, deixando uma pátria e um exército que muito têm de medieval forcejar pelo desconhecido apertados num cerco, sem palavras que lhes religuem o esforço às origens, aos mitos mores de uma cultura centenar – a sempre adiada restauração, a crença na missão histórica desusada, a mansa desmesura portuguesa.” (Cravo, 82)

“Porque, por outro lado, como é que isto pode ficar assim e não inchar, fome e ocupação na Polónia, que afinal é Europa, a Tara de todos nós (americanos e russos compris). A Polónia que já foi, sempre foi?, pomo grave de antiquíssima discórdia. Como é que isto pode ficar assim, criar com mimos crianças sem perspetivas de emprego, esgotar combustível e reservas de alimento mundial até ao osso, piorar tudo e saber-se, ver-se pela primeira vez nesse pequeno olho sincrónico que nos mira em todos os noticiários internacionais, por mais vigiados – ver-se o declive para uma carência que só poupará os poderosos. E que poderosos têm hoje a absoluta garantia de continuar a sê-lo?” (Mapa Cor de Rosa:112-113)


Bibliografia ativa selecionada

COSTA, Maria Velho da
(1979), Casas Pardas, Lisboa, Moraes Editores, p. 244.
(1983), Lúcialima, Lisboa, Edições “O Jornal”, p. 162.
(1984) O Mapa Cor de Rosa, Lisboa, Publicações D. Quixote, p.139.
(1988), Missa in albis, Lisboa, Publicações D. Quixote, p. 347.
(1991) “Onze da noite”, in Das Áfricas, texto para fotografias de José Afonso Furtado, tradução para inglês de João Gomes Cravinho, Lisboa, Difusão Cultural, p. 17.
(1994a), Cravo, Lisboa, Publicações D. Quixote.
(1994b), Dores, Lisboa, Publicações D. Quixote.
(2001), Irene ou o contrato social, Lisboa, Publicações D. Quixote.
(2008), Myra, Lisboa, Assírio & Alvim.
CARVALHO, Armando Silva, e COSTA Maria Velho da (2006), O Livro do Meio, Lisboa, Editorial Caminho.


Bibliografia crítica selecionada

COUTINHO, Ana Paula (2011),
. “Outras ‘Cartas de Londres’: O Mapa Cor de Rosa, de Maria Velho da Costa” (Contributos para uma cartografia enunciativa de escritores em “passagem de estar”, “Deslocações Criativas”, Cadernos de Literatura Comparada, nº 24-25, Porto, Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Edições Afrontamento, pp. 47-67.
. (2012), “Quando as casas não são casas, mas complexos lugares de deslocamentos: Maria Velho da Costa e o ser de passagem”, in Falemos de Casas, Homenagem a Maria Velho da Costa, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 14 de dezembro, (texto ainda inédito).
DELEUZE, Gilles, GUATTARI Félix (1980), Mille Plateaux, Paris, Les Éditions de Minuit.
DIAS, Maria José Carneiro
. “Maria Velho da Costa : uma escrita que se faz “barragem contra a voz passiva”, texto apresentado ao colóquio “Por prisão o infinito: censuras e liberdade na literatura”, realizado nos dias 26 e 27 de setembro de 2001, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
. Maria Velho da Costa – uma poética da au(c)toria, tese de doutoramento apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto no dia 4 de abril de 2014.
FERNANDES, Ângela (2002), “ «Nem todos somos humanos»: os modelos de construção pessoal em Missa in Albis, de Maria Velho da Costa”, comunicação inédita proferida em 1 de julho, no VII Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas, Brow University, Providence, Rhode Island, EUA.
MAGALHÃES, Isabel Allegro (2005), “Errância e moradas: Irene ou o contrato social, de Maria Velho da Costa”, in O Romance Português pós 25 de Abril [PETROV, Petar, org.], Lisboa, Roma Editora, pp. 273-285.
MARTINHO, Fernando J. B. (1992), “Olhares convergentes” [Recensão crítica a Das Áfricas, de Maria Velho da Costa e José Afonso Furtado], Colóquio / Letras, nº 125/126 (julho), Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, p. 260.
SEIXO, Maria Alzira (1984) “O outro lado da ficção: diário, crónica, memórias, etc.: a propósito de O Candidato de Luciféci. Diário III (1977-1981), de João Palma-Ferreira e de O Mapa Cor de RosaCartas de Londres, de Maria Velho da Costa”, Colóquio/Letras, nº 82 (novembro), pp. 76-81. [Este artigo também foi publicado in A Palavra do Romance: Ensaios de Genealogia e Análise. Livros Horizonte, Lisboa, 1986, pp. 160-181.

 

Maria José Dias

 

Como citar este verbete:
DIAS, Maria José (2017), “Maria de Fátima Bívar Velho da Costa”, in A Europa face a Europa: prosadores escrevem a Europa. ISBN 978-989-99999-1-6.
http://aeuropafaceaeuropa.ilcml.com/pt/verbetes/maria-de-fatima-bivar-velho-da-costa/