MAXIM LEO

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MAXIM LEO

(1970- )

Maxim Leo é um escritor, jornalista e argumentista alemão, nascido em Berlim Leste em 1970, na ex-República Democrática Alemã (RDA). É autor de vários ensaios escritos em alemão, de que destacamos Haltet euer Herz bereit: eine ostdeutsche Familiengeschichte, que venceu em 2011 o Prémio do Livro Europeu, um galardão instituído pelo Parlamento Europeu no intuito de fomentar a adesão ao espírito e projeto europeus. Esta obra foi magistralmente traduzida para francês por Olivier Mannoni com o título Histoire d’un Allemand de l’Est (2010) [História de um leste-alemão].

Note-se que Maxim Leo – jornalista e editor principal do diário alemão Berliner Zeitung desde 1997 – fora antes galardoado com o Prémio Franco-Alemão do Jornalismo em 2002 e com o Prémio Theodor Wolff em 2006. Na redação do Berliner Zeitung, é especialista responsável pelos temas da política francesa e da União europeia, tendo cursado Ciências Políticas na Universidade Livre de Berlim e em Paris (Sciences Po).

A narrativa autobiográfica História de um leste-alemão resulta de uma vasta investigação ao passado da sua família num período de perto de sessenta anos no intuito de exumar e descrever três gerações de uma família alemã comprometida, uns com a resistência, outros com o nacional-socialismo; por fim, todos com a RDA. Note-se que Maxim Leo é neto do jornalista, escritor, mas antes mais resistente antifascista comunista alemão, Gerhard Leo, com remotas origens judaicas.

O interesse deste magnífico documento narrativo prende-se com o modo como Leo cruza desordenadamente os destinos históricos dos vários membros da família, começando com a evocação do percurso francês verdadeiramente rocambolesco de resistente ao nazismo do avô Gerhard Leo; passando pelo do outro avô, Heinrich Werner, adepto entusiasta do nacional-socialismo; terminando com a descrição da difícil vida quotidiana sob o regine socialista da ex-RDA até à queda do Muro de Berlim em 1989, período esse que o autor experienciou enquanto estudante, mas que os pais, Wolf e Anne viveram como difícil transição num Estado decadente onde reinavam a suspeição e a delação generalizadas.

Numa abordagem que evita quer a glose do traumatismo pós-memorial, quer o sentimento difuso de saudade pós-Unificação alemã conhecido por “ostalgia”, Max Leo contrasta os percursos de ambos os avôs como o sinal das contradições da própria Alemanha (e da Europa) do século XX.

Com efeito, se, por um lado, Gerhard teve de fugir, integrar as redes da resistência francesa na difícil qualidade de comunista alemão refugiado em França; sofrer várias perseguições antes de voltar à Alemanha como herói, abraçando de imediato o projeto de criação da RDA, já Werner conheceu o percurso inverso. Aderiu entusiasticamente ao nazismo, integrou o exército do Terceiro Reich, elogiou Hitler, foi derrotado e mandado para França como prisioneiro de guerra. Regressou à Alemanha, convertendo-se num fervoroso militante do Partido Comunista da futura RDA.

História de um leste-alemão afigura-se, pois, um retrato condensado, a partir de uma só família, das próprias contradições alemãs. Tanto mais que o final empolgante da narrativa acompanha a par e passo os últimos anos da RDA; anos esses que Wolf e Anne viveram de forma oscilante, entre a fé no socialismo de Estado – paternalista e garante do bem-estar nacional – e a dúvida quanto aos alicerces realmente democráticos do Estado leste-alemão. Neste contexto, a queda do Muro de 1989, frequentemente retratada como uma euforia coletiva, aparece aqui vista sob o prisma de uma certa reticência ou constrangimento.

Ao apontar para as perigosas aporias históricas da Alemanha e da Europa, esta narrativa também pretende claramente ser lida enquanto sinal de alerta dirigido à Europa atual, tentada (de novo) por discursos populistas e xenófobos.

 

Antologia

“Essa também é a opinião de Wolf, que vai troçando de mim por eu precisar de tantas coisas para ser feliz. Porque doravante faço parte dos “outros”. Dos do Oeste. Ele observa com espanto no que se tornaram o filho e a rua. Na verdade, espanto-me a mim mesmo. Ignoro como tudo isto aconteceu, como o homem do Leste desapareceu em mim. Como me tornei um habitante do Oeste. É seguramente o resultado de um processo desenfreado, análogo a essas doenças tropicais altamente contagiosas que levam anos a propagar-se no corpo sem darem qualquer sinal, e acabam por assumir o poder. Os tempos novos transformaram a minha rua, mudaram-me a mim também. Não tive sequer de me deslocar: foi o Oeste que veio até mim. Conquistou-me no meu domicílio, no meu meio familiar. Facilitou-me a partida para uma vida nova. Tenho uma esposa que vem de França e dois filhos que ignoram por completo que houve um dia um qualquer Muro de Berlim” (p. 17-18).

“Wolf tem dezanove anos quando se ergueu o Muro, a idade que eu tinha quando foi derrubado. É provável que tenha entendido tão pouco o alcance histórico desse momento quanto eu quando me encontrava em Berlim, no Checkpoint Charlie, a 9 de novembro 1989. A primeira coisa que me veio à cabeça ao pisar o chão de Berlim-Oeste foi que me tinha esquecido dos cigarros em casa. Isso irritou-me consideravelmente, pois fumo sempre que fico excitado. Não tinha dinheiro do Oeste para comprar cigarros, e não me atrevia a pedir um aos transeuntes. Pensei para mim mesmo: o que vão elas pensar de mim, essas pessoas do Oeste, se me puser logo a mendigar mal tenha passado para o mundo livre? Perguntei-me se devia regressar rapidamente para o Leste, ir buscar um maço de cigarros e voltar a passar de seguida a fronteira. Mas não tinha a certeza que les me deixariam sair uma segunda vez. Aliás, pensei que nem sequer era líquido que me deixassem passar de novo a fronteira para Leste. Se, nesse preciso instante, um repórter do Oeste me tivesse perguntado o que estava a sentir, ter-lhe-ia provavelmente dito que essa queda do Muro era uma fonte de stress absoluto” (p. 60-61).

“Creio que, para ambos os meus avôs, a RDA era uma espécie de país de sonho onde puderam esquecer-se de tudo quanto os havia afligido até então. Era uma vida nova, uma possibilidade de recomeçar do zero. A perseguição, a guerra, o cativeiro, todas essas coisas horríveis que Gerhard e Werner viveram, podiam ficar enterradas debaixo do gigantesco túmulo do passado. Doravante, só contava o futuro. E o pesadelo transformou-se em sonho. A ideia de construir um Estado antifascista era um bálsamo para esses dois homens. Gerhard podia deixar-se embalar pela ilusão de que os cidadãos da RDA nada tinham a ver com os que, outrora, tinha escorraçado a sua família do país. Quanto a Werner, ele podia fazer como se tivesse sempre acreditado no socialismo. Todas as feridas, todos os erros estavam esquecidos e perdoados quando estavam prontos a tornar-se peças de engrenagem dessa nova sociedade. Uma nova fé contra um sofrimento antigo: eis o pacto fundador da RDA.”

 

Bibliografia ativa selecionada

LEO, Maxim (2010), Histoire d’un Allemand de l’Est, Paris, Arles, Actes Sud, col. “Babel” [Tradução francesa].

 

Bibliografia crítica selecionada

PIEROT, Jean-Paul – “Maxim Leo. Trois générations d’une famille allemande”, L’Humanité, 01-12-2010.

LEO, Maxim – “Nous, Franco-Allemands !”, Le Monde,‎ 15-12-2011.

PIVERT, Benoît – “Ostalgie, analyse d’un phénomène”, Allemagne d’aujourd’hui, Paris, nº 189, juillet-septembre.

José Domingues de Almeida

 

Como citar este verbete:
ALMEIDA, José Domingues de (2018), “Maxim Leo”, in A Europa face a Europa: prosadores escrevem a Europa. ISBN 978-989-99999-1-6.

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