MIGUEL TORGA

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MIGUEL TORGA

(1907-1995)

 

Nascido em S. Martinho de Anta e devedor da seiva vital do terreno xistoso do Douro, Miguel Torga acrescentou-se desde cedo das outras paisagens portuguesas, por onde passeava e onde ia aferindo a natureza da pátria e das suas gentes, deliciando-se com a harmonia na diferença, que ilustrou na metáfora do granito: “O granito é mica, quartzo e feldspato, – mas é granito. Basta que cada um dos ingredientes seja puro para que a fraga resultante tenha a beleza, a dureza e a nobreza que sabemos” (2000a:54).

Apesar de afetivamente muito ligado ao Brasil, por lá ter estado em menino, sabia-se português e ibérico por nascimento, e europeu pela educação (1993:70).

Não fora pela interdição do passaporte durante um largo período da ditadura (1974:103), o escritor teria começado muito mais cedo a atravessar fronteiras, seguindo um impulso de passagem que tão bem exprimiu no seu poema “Ronda”. Transmontano e telúrico, fez das suas raízes portuguesas e ibéricas profundas um esteio identitário com que orgulhosamente se definia (1987:175) e a partir do qual perspetivava o mundo, demarcando-se, porém, de todo e qualquer atavismo atrofiador de horizonte.

Estas características, associadas à verticalidade e inteireza do seu caráter, fariam adivinhar a sua perspetiva sobre o que deveria ser a Europa: um conjunto caleidoscópico de países soberanos, orgulhosos das suas origens e especificidades, trabalhando em prol de um desígnio comum de desenvolvimento civilizacional. A sua Europa, cuja conceção faz eco do que defendia Unamuno, seria feita de homens e não de folhas de cálculo, assentaria em valores e na preservação das diferenças identitárias de cada país, para que o todo comunitário beneficiasse do “sal” de cada parte (1990:95).

A identidade é, de facto, um conceito chave em Torga, que o compromete todo e que ultrapassa em importância o de liberdade (1993:12). A partir dele se percebe a sua aversão às políticas descaracterizadoras que retiram a cada nação o “rosto inconfundível” (2000a:252) e o dissolvem num caldo indiferenciado. Ao arrepio desta postura, o escritor defende que cada país preserve o “justo orgulho de origem” (1977a:75), numa sábia e cuidada articulação da sua realidade individual com as realidades individuais das outras nações, rumo a um desígnio comum (2000a:277).

Homem de “espírito acordado”, Miguel Torga defendia que o português culto tinha por missão “dar a volta ao mundo com o pensamento” (2000a:117). Esse percurso reflexivo e alimentado, logo que lhe foi possível sair do país, pelas viagens físicas, plasmou-se sobretudo nos seus Ensaios e Discursos e nas páginas do Diário. O território e a fronteira balizaram-lhe o pensamento porque considerava que esta era uma Terra de homens e ele queria perceber que tipos humanos brotavam de cada chão (1991c:115).

Desde os primeiros volumes do Diário, mas também n’A Criação do Mundo, se denuncia o atraso civilizacional de Portugal que, após o protagonismo afirmativo das Descobertas (1993:156), se remeteu a ser “calcanhar da Europa” (1991a:222). A consciência desse atraso reveste-se frequentemente de um tom lamentoso pelo facto de faltar aos portugueses visão de futuro, impulso renovador e capacidade de ação, presos que estão a um chão atávico, de olhos postos no seu quinhão de horta, sem imaginação nem impulso para se lançarem além da pequenez do seu quotidiano (1986:104 e 201). De olhar lúcido e crítico, Miguel Torga mede as distâncias culturais e civilizacionais e aponta as qualidades europeias: ideias e obras grandiosas, catedrais (a contrastar com as “capelinhas” portuguesas), vitalidade cultural (e que pena que ele tem, em meados do século XX, por não haver nenhum artista português com projeção internacional!), cosmopolitismo e espírito escorreito e desempoeirado (1974:134).

Não se atribuam, porém, as suas constatações magoadas a uma qualquer atitude de autocomiseração subserviente. Orgulhosamente português e ibérico, queria que se preservasse a alma dos povos, mas sem emparedamentos nem atrofia cultural. Daí que acuse sem contemplações uma Europa impositiva e arrogante, enferma ainda, por um certo anacronismo, de uma atitude colonialista imoral mas arvorada em presunção de superioridade moral, sobretudo representada pela França (1983a:52 e 1990a:19 e 46), mas também pela Inglaterra (1993:174) e pela Alemanha (idem:24).

O seu sentimento sobre a Europa, mas também sobre a globalização, não pode abstrair-se do conceito de pátria, que define como “resplendor temporal de um caleidoscópio de eternas diversidades naturais” (2000a:277). Trata-se, para Torga, de harmonizar “a voz e a raiz do corpo” e a voz da civilização e do cosmopolitismo” (1974:151-152) na construção de uma pátria ideal “do tamanho do mundo” (idem). Sensível ao apelo do longe, pelo que ele comporta de “conquista espacial da liberdade” (1977b:93), reconhece, já em 1962, que as pátrias iam findando dentro de nós, seduzidas pela tentação do universal (1977b:93).

Em assomos de otimismo, à medida que o projeto europeu vai ganhando forma, Torga vê na integração europeia a possibilidade de Portugal se medir com os “corifeus da civilização” (1987:156), recuperando um desejo velho, inscrito no Diário I, de “abrir, ao lado do postigo ibérico que (lhe) revela(va) a vida, amplas e europeias janelas” 1989:65). A Europa tornar-se-ia, assim, desafio à capacidade lusa de se adaptar e criar, corrigindo amadorismos e rusticidades, ganhando visão estratégica, mas garantindo que se não desvirtuasse, pela relativização ou pela amálgama, o caráter genuíno que constitui a portugalidade.

Progressivamente, porém, vai ficando claro que o rumo europeu é tão só o de um Mercado Comum. Miguel Torga aponta então as fragilidades de uma rendição a um jugo económico, ideológico e militar, sem uma voz ativa que iluminasse um rumo (1983b:137). Perante uma Europa que “masoquisticamente se desfigura como que envergonhada da sua nobre identidade” (1993:140) e se vai transformando num “desmantelado tear” (2000a:122), o escritor transmontano mostra as suas reservas crescentes contra tudo o que lhe parece atentatório do génio criador que norteara a Europa e que agora cristalizava numa “monótona concepção de uniformização do mundo” (1993:89). Contesta, por isso, Maastricht, como resultado de uma “febre usurária” e dói-lhe que a integração de Portugal no Mercado Comum não acautele as relações privilegiadas que o país deveria manter com o Brasil, como tributo à Carta de Pero Vaz de Caminha, lamentando que os portugueses se tenham rendido a um jugo anestesiante que os faz “europeus de primeira, espanhóis de segunda e portugueses de terceira” (1993:149).

O último diário é, assim, uma espécie de Requiem pela sonhada Europa das Nações, e o Tratado de Maastricht o instrumento diabólico que a invalidou. Porém, em desafio rebelde e heroico, os vitrais de Chartres ou as páginas de Proust, aí estarão sempre a assombrar a “miopia pragmática duma época sem alma e sem imaginação” (1993:140).


Antologia:

Coimbra, 11 de Novembro de 1942 – Quando me ponho a pensar no homem que depois de Cervantes e de Camões nos levou à Europa com mais firmeza e sentido, ocorre-me sempre o nome cada vez mais novo de Unamuno. […] É que, para mim, o grande erro de quantos, depois de terem a consciência do nosso caso, quiseram fazer da Ibéria uma terra da Europa, foi tentarem semear neste tórrido chão peninsular frias ideias doutros paralelos. Só o comentador de D. Quixote (e Ganivet, embora com menos afinco) teve o génio de entender o problema a fundo, e de ver em que justa medida a esponja, sem perder o justo orgulho da origem, poderia sorver o orvalho doutra cultura. […] Ora, é numa fraternidade assim de confissões e confidências que a cultura se faz. Quer dizer: só depois de bem avaliar as suas características particulares e de as caldear a seguir no grande lume universal, pode um qualquer ser ao mesmo tempo cidadão de Trás-os-Montes e cidadão do mundo. Foi o que Unamuno se esforçou por nos ensinar e ensinar à Europa. Recusando-se, activamente, a africanizar a Ibéria, ou a americanizá-la, ou a europeizá-la pura e simplesmente, tentando, pelo contrário, arrancar da nossa intra-história a nossa verdadeira significação continental, conseguiu esta maravilha: que a Europa tivesse consciência de nós, e nós dela. (1977:75-77)

Coimbra, 1 de Março de 1990 – […] Nunca podemos ser plenamente livres, mas podemos, em todas as circunstâncias, ser inteiramente idênticos. Só que, se o preço da liberdade é pesado, o da identidade dobra. A primeira pode-nos ser outorgada até por decreto; a outra, é sempre da nossa inteira responsabilidade. (1993:12)

Argel, 14 de Setembro de 1953 – As duas bofetadas que um polícia francês acaba de dar na minha frente a um nativo vagabundo hão-de custar caro à França. […]

Este cartesianismo europeu não se convence de que toda a forma de colonialismo é imoral, seja ela a mais progressiva materialmente e a mais codificada socialmente. De que à universal e tentacular presença civilizadora do cristianismo falta sempre um dos lados do diálogo: a opinião do indígena. […] mas todo o submetido responde, mais cedo ou mais tarde, mesmo sem ser interrogado. Embora a séculos de agressão, os incas estão a responder, e os astecas também, e os negros também. E não me parece que o mundo islâmico se cale, túrgido como o vejo, com todas as energias represadas nas dobras do albornoz. […] Mais do que o poder dos engenhos de repressão, do que as seduções dum progresso que atropela as essências, vale a obstinação dum versículo que se estampa nos olhos, depois de ser carícia nos lábios e friso caligráfico nas mesquitas. E mais ainda do que ele, vale a liberdade. O gosto de ser livre diante do próprio deus. (1983a:52-53)


Bibliografia ativa selecionada

TORGA; Miguel

. (2000)a, Ensaios e Discursos, Lisboa, Publicações Dom Quixote.

. (2000)b, Poesia Completa, Lisboa, Publicações Dom Quixote.

. (1991)a, A Criação do Mundo, 1ª edição conjunta, Coimbra, edição do autor.

. (1989), Diário I, 7ª edição, Coimbra, edição do autor.

. (1977)a, Diário II, 4ª edição, Coimbra, edição do autor.

. (1973)a, Diário III, 3ª edição, Coimbra, edição do autor.

. (1973)b, Diário IV, 3ª edição, Coimbra, edição do autor.

. (1974), Diário V, 3ª edição revista, Coimbra, edição do autor.

. (1978), Diário VI, 3ª edição, Coimbra, edição do autor.

. (1983)a, Diário VII, 3ª edição revista, Coimbra, edição do autor.

. (1976), Diário VIII, 3ª edição revista, Coimbra, edição do autor.

. (1977)b, Diário IX, 2ª edição, Coimbra, edição do autor.

. (1991)b, Diário X, 2ª edição revista, Coimbra, edição do autor.

. (1991)c, Diário XI, 2ª edição, Coimbra, edição do autor.

. (1986), Diário XII, 3ª edição revista, Coimbra, edição do autor.

. (1983)b, Diário XIII, Coimbra, edição do autor.

. (1987)a, Diário XIV, Coimbra, edição do autor.

. (1990)a, Diário XV, Coimbra, edição do autor.

. (1993), Diário XVI, Coimbra, edição do autor.

. (1990)b, Bichos, 18ª edição, Coimbra, edição do autor.

. (1987)b, Contos da Montanha, 7ª edição, Coimbra, edição do autor.

. (1975), Novos Contos da Montanha, 6ª edição revista, Coimbra, edição do autor. 


Bibliografia crítica selecionada

GAGO, Dora Nunes (2012), “ «Os rostos» da Europa no Diário de Miguel Torga: da falibilidade da história ao declínio do presente”, in RUA-L. Revista da Universidade de Aveiro, nº 1 (II-Série), pp. 39-51 (versão pdf.)

SOUSA, Carlos Carranca O. (2012), “ A ideia da Europa no Diário XVI de Miguel Torga, in RUA-L. Revista da Universidade de Aveiro, nº 1 (II-Série), pp. 31-38 (versão pdf.)

 

Maria José Dias

 

Como citar este verbete:
DIAS, Maria José (2017), “Miguel Torga”, in A Europa face a Europa: prosadores escrevem a Europa. ISBN 978-989-99999-1-6.
http://aeuropafaceaeuropa.ilcml.com/pt/verbetes/miguel-torga/