VALTER HUGO MÃE

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VALTER HUGO MÃE

(1971-)

Não obstante ser maioritariamente reconhecido pelo público como prosador, não se pode negligenciar o facto de Valter Hugo Mãe possuir catorze livros de poesia, reunidos em Folclore Íntimo (2008) e Contabilidade (2010).

Ora, uma conceção pessoal e explícita sobre a Europa parece mais evidente na prosa do que na poesia deste autor, o que pode ser corroborado pelo facto de, ao longo de Contabilidade, o termo “Europa” não surgir, de modo explícito, uma única vez. Porém, se por um lado a poesia de Valter Hugo Mãe “não é um fim em si mesma, mas um laboratório de criação, um extraordinário panteão de confidências improváveis” (Teixeira, 2016: 55), por outro, o hibridismo da forma propulsiona a ampliação de um efeito de ostranenie. Cabe então ao leitor valer-se dos mecanismos interpretativos para conseguir recuperar os subtis fragmentos de referências ao continente europeu patentes na obra, através da descrição de personagens, ações ou objetos concretos.

É, de facto, uma cosmovisão metafórica e disfórica, não delimitadora de fronteiras territoriais, mas culturais e percetivas do velho continente, que viso propor para a poética ora satírica, ora taciturna do autor.

No que respeita ao território português, Valter Hugo Mãe opta por descrever ironicamente um sujeito individual, residente no país e claramente dividido entre a cidade e o campo: “consigo vantagem em / ostentar uma urbanidade sem exageros” (92), “há em mim uma alma de província, cheia / de paisagem, extensões bonitas de campos / verdejantes e areia aloirando ao sol” (idem). Talvez este mesmo sujeito possa representar um modo saudosista e pesaroso do viver lusitano.

Valter Hugo Mãe procura, pela descrição psicológica caricatural do eu e pela narração irónica do seu relacionamento com o coletivo, não só definir a essência de uma “portugalidade”, mas também denunciar algumas particularidades desse mesmo caráter, que lhe parecem carecer de regeneração. Atente-se nas seguintes passagens: “mira na saudade para / escrever o passado a limpo e comprar o futuro / fiado” (14), “a velha inclinou-se sobre a minha / cabeça aflita e disse, coisa de leite, / floresce no centeio e deita o corpo / ao meio da terra. coisa de sangue, / levanta o corpo e anda” (51), “cansados, sentimos a dureza / da existência, angústia de não / sabermos nada de essencial sobre o ser / humano” (78). Finalmente, conclui: “temos ideais de / gente mirrada, mais ainda porque somos / portugueses, e não abdicamos de um bom drama / para nos completarmos no momento em que / somos o fugaz centro das atenções” (95). Este último excerto pode assumir-se não apenas como crítica desvelada ao modo de ação português, mas ainda como alerta para a urgência de reequacionar os paradigmas mentais da comunidade.

Apesar de o lexema “Europa” nunca ocorrer efetivamente nos poemas de Valter Hugo Mãe, arrisco afirmar que o conceito se encontra latente nos trechos onde faz notar quer o sofrimento de cada indivíduo (e a sua subsequente inquietação com o eu finito), quer a relação do Homem com a Natureza, ou, de forma mais concreta, com o campo e o trabalho braçal.

Destaquem-se os seguintes segmentos textuais:

 

distantes e

insondáveis como as

árvores, os trabalhadores

descobriam os

corpos e espalhavam-se pelos campos

.

beleza daninha,

pés na terra, acenavam por

vezes ou limpavam o

suor, conscientes de que

estávamos perto (Mãe, 2010: 179-180)

 

ou

 

também para que me

sepultes como semente

e nunca como uma flor

porque sei que tudo

me diz bem vinda ao

mundo inteiro enquanto parto

(…)

já to disse, em nenhum túmulo caberá a

minha alma, vazarei pelos tamanhos remediada

com a solidez das coisas

que te tocarem (201-202).

 

Nestes breves excertos, encontra-se uma certa tonalidade melancólica. No primeiro, é possível percecionar a intrínseca ligação entre o mundano, o terreno, e o ser humano, que se dedica intensamente para conseguir extrair frutos do seu trabalho e sustentar quem de si depende. No segundo, a dolência assume-se como figura central, dado que a morte assume a sua força e corrói as fronteiras corporais, separando os amantes. Vejam-se os próximos versos, que complementam esta argumentação e expõem um rastro sanguinário:

 

mortos, deus mandava-os para o

inferno. o inferno

era dentro da minha

cabeça,

e já quase não cabiam

.

compreendi que,

se morriam queimados, descarnados

em ácido ou mutilados a sangrar torneiras abertas

eu queria ver (181)

 

Valter Hugo Mãe não limita, através do sujeito lírico, os vestígios do sofrimento humano a um espaço fechado; parece ter necessidade de o expor sem qualquer fronteira físico-espacial ou rememorativa, como forma de consciencialização: “lembro-me do que / diziam. que eram muitos, / esquartejados pela / praça sem motivo” (idem). Neste âmbito, atente-se também no facto de o autor empírico assumir a sua descrença na humanidade e admitir que, no seu ponto de vista, esta “precisa de aprender algumas coisas e de uma vez por todas” (Mãe apud Silva, 2012), para que o ambiente hostil e os trilhos de sangue deixados pelos momentos bélicos não voltem a surgir, numa “Europa que nos foi prometida [e] que está a falhar completamente” (ibidem).

 

Lista de poemas sobre a Europa

“A Beleza Daninha”, Contabilidade (2010)

“é a luz que nos sorve”, Contabilidade (2010)

“somos simples, somos buracos”, Contabilidade (2010)

“O Silêncio como Sustento”, Contabilidade (2010)

“Raiz de Pássaro”, Contabilidade (2010)

 

Antologia breve

A BELEZA DANINHA

 

(…)

saíamos das noites

absolutas, onde os

bichos e os homens

acabavam, tínhamos

a urgência das manhãs,

claros de sol transparecíamos casa fora

a ver o pomar. só então recomeçávamos

.

distantes e

insondáveis como as

árvores, os trabalhadores

descobriam os

corpos e espalhavam-se pelos campos.

.

beleza daninha,

pés na terra, acenavam por

vezes ou limpavam o

suor, conscientes de que

estávamos perto

.

mas

não se apercebiam do quanto os parasitávamos,

eram como solitários e feios e

escureciam tudo em volta

.

carregavam pedras às

costas como

máquinas aterrorizadas

ou monstros enfim adultos

.

por vezes,

caíam ladeira abaixo,

abriam-se como ovos e ficavam

a estrelar ao sol

 

vistos às janelas da casa

pareciam descansar

 

ou outros amofinando a

virilidade como

adversários adultos

.

mortos, deus mandava-os para o

inferno. o inferno

era dentro da minha

cabeça,

e já quase não cabiam

 

compreendi que,

se morriam queimados, descarnados

em ácido ou mutilados a

sangrar torneiras abertas,

eu queria ver

.

(…)

 

matilhas que latiam noite

inteira farejando o sangue

às portas

 

(…)

 

eu no sangue fedendo

omnipresente

para enfurecer os focinhos

.

seca ao sol, a minha

avó pendurada à entrada como

terra enforcada

 

era um fantasma

nosso, o terço ao

pescoço desarmado

.

magníficas eram as

forças dos animais

arrastando os arados, e os

homens entre eles como

traves capazes de ondular, gigantes

traves exuberantes e muito

insegura no amor, com a

fúria dos bichos eram

juntos intensos silêncios, amuavam

belíssimos, a cada dia

mais ainda contra nós

.

(…)

eu era uma

criança que apodrecia,

estrumando a casa para

a plantação dos ciprestes

.

(…)

dispunha as mãos entre os

focinhos, os dedos como

fogueira onde ardiam

 

e mais alguém que a visse

seria o próximo a

verter o sangue à

boca da matilha

.

lembro-me do que

diziam. que eram muitos,

esquartejados pela

praça sem motivo, fui

vê-los segundo a folia

do meu desejo

.

(…)

(Mãe, 2010: 179-188)

 
Bibliografia ativa selecionada

MÃE, Valter Hugo (2010), Contabilidade, Carnaxide, Alfaguara.

 

Bibliografia crítica selecionada

MAFFEI, Luis (2016), “Valter em Versos”, in AA.VV., Nenhuma Palavra é Exata: Estudos sobre a obra de Valter Hugo Mãe, Porto, Porto Editora: 25-36.

SILVA, João Céu e (2012), “«Seria ingénuo pensar que o governo pudesse salvar-nos»”, in Diário de Notícias, www.dn.pt/artes/interior/seria-ingenuo-pensar-que-o-governo-pudesse-salvar-nos-2921933.html (acedido em 11 de janeiro 2018).

TEIXEIRA, José Rui (2016), “Feito de amar entre os homens apenas as coisas mais efémeras: Leituras da poesia de Valter Hugo Mãe”, in AA.VV., Nenhuma Palavra é Exata: Estudos sobre a obra de Valter Hugo Mãe, Porto, Porto Editora: 50-59.

 

Cristina Ramos

 

Como citar este verbete:
RAMOS, Cristina (2018), “valter hugo mãe”, in A Europa face a Europa: poetas escrevem a Europa. ISBN 978-989-99999-1-6.
http://aeuropafaceaeuropa.ilcml.com/pt/verbetes/valter-hugo-mae/