VERGÍLIO FERREIRA

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VERGÍLIO FERREIRA

(1916-1996)

Vergílio António Ferreira nasceu em Melo, aldeia do concelho de Gouveia. A Europa comparece com frequência na sua ficção, ensaio e diário, sobretudo a partir do momento em que se torna na figura de proa do existencialismo em Portugal. As páginas finais de Mudança (1949) testemunham o novo cenário europeu saído da Segunda Guerra Mundial, o qual motiva a rutura da personagem central deste livro em relação ao seu passado de simpatizante do nazismo, com o consequente desvio rumo a um pensamento heterodoxo, vincadamente existencial. Como salienta Luís Mourão (vd. 2003: 61), no explicit de Mudança o narrador parece esquecer-se do passado da personagem central para começar a pensar com ele, o que constituirá uma principais causas, acrescentamos nós, para a viragem na ficção vergiliana do romance neorrealista para o existencial.

Adriano, protagonista de Apelo da Noite (1954, mas editado em 1963), romance com evidentes reminiscências de Malraux, discute no seu círculo de amigos e companheiros a antinomia entre o intelectual e o homem de ação, fulcro narrativo deste livro, conjuntamente com a liberdade do existencialismo de Jean-Paul Sartre. Mas a determinado momento, Teles fala a Adriano de uma Europa condenada, em que o “futuro será da Ásia, da África. (…). Daqui a cem, duzentos anos, os pretos e os amarelos virão buscar à Europa os mestres das ideias e das artes. Como Roma ia à Grécia. E depois será o fim. E tudo voltará ao princípio” (1989: 211). O narrador-protagonista de Em Nome da Terra (1990) dirá sensivelmente o mesmo (vd. 1991: 156), ideia recuperada pelo autor, aquando da alocução proferida na cerimónia de atribuição do Prémio APE – Associação Portuguesa de Escritores, a Na tua Face (1993).

A partir de Alegria Breve (1965), os quadros narrativos da ficção vergiliana apresentam a Europa mergulhada numa incontornável crise de valores. Em Nome da Terra convoca, aliás, um continente envelhecido (vd. 1993b: 16) alegoricamente visionado no lar de idosos onde se encontra o seu narrador-protagonista. Neste romance destaca-se, de igual modo, o episódio sobre os foragidos à Guerra Civil de Espanha que atravessam a fronteira do Norte de Portugal (vd. 1991: 123-126).

Em Até ao Fim (1987), Flora concorre a um leitorado de três anos na Grécia, separando-se do narrador-protagonista (Cláudio) e do filho de ambos, Miguel. Da Grécia escreve a sua única carta a Cláudio (capítulo XVIII), num episódio em que perpassa o cómico vergiliano, sobretudo na paródia à filosofia e aos mitos da Grécia antiga. Apesar do tom humoral da epístola, Flora faz, todavia, o panegírico do regresso ao princípio, em simultâneo com o renascimento do homem europeu, no que é ainda um eco das últimas palavras, atrás citadas, de Teles em Apelo da Noite. O derradeiro episódio narrado por Cláudio descreve um ataque terrorista à embaixada francesa, protagonizado pelo filho Miguel que morre no confronto tido com as forças de segurança. E regressamos ao incipit deste romance, ou seja, à veladura e ao diálogo de Cláudio com o corpo morto de Miguel.

O pensamento existencial e humanista de Vergílio Ferreira formou-se com as leituras dos clássicos greco-latinos e de Santo Agostinho, Pascal, Hegel, Dostoievski, Husserl, Jaspers, Kafka, Malraux, Heidegger, Sartre, Merleau-Ponty, Camus e Foucault, entre outros. E as grandes questões filosóficas, sociais, religiosas e políticas, que assolam a Europa da segunda metade do século XX, encontram na sua obra literária uma singular repercussão, não só na ficção, como vimos, mas também no ensaio e no diário.

No ensaio, Vergílio Ferreira mantém, como anotámos, a sua qualidade de figura marcante do existencialismo em Portugal. Dá ainda conta da importância do chamado Nouveau Roman que associa à filosofia estruturalista. Adere, em termos formais, às propostas romanescas dos principais cultores do Nouveau Roman, não comungando, todavia, do esvaziamento do sujeito e da consequente reificação sofrida pelas suas personagens. Assim, “à totalização do nada, da pura ausência que o ‘novo romance’ nos propõe, o existencialismo opõe a comunidade de uma condição. Se a essa condição a julga absurda, aceita a gravidade disso e enfrenta-a a sério” (1978: 196), como se lê no ensaio “Situação actual do romance” que traça as coordenadas teóricas da sua crítica literária. Escreve, entretanto, “Questionação a Foucault e a algum estruturalismo” (1993: 269-313), prefácio a As Palavras e as Coisas de Michel Foucault, que provoca a polémica com o jovem neorrealista e estruturalista, Eduardo Prado Coelho, nas páginas do suplemento literário do Diário de Lisboa, entre abril e maio de 1968, polémica que se vinha antevendo há algum tempo, em anteriores textos de ambos. Ainda em agosto desse ano publica, nas páginas de O Comércio do Porto, “A morte do homem” (1993: 27-34), onde retoma as reflexões que o opõe ao estruturalismo. Num outro texto, “Post-Scriptum sobre a revolução estudantil”, apresentado em posfácio a Invocação ao meu Corpo, observa, com agrado, a revolta estudantil de Maio 68 e considera-a um regresso ao existencialismo. Por essa razão, entende, com Lévi-Strauss, que o estruturalismo “com as suas imediações foi (…) um dos grandes vencidos da revolução de Maio” (1994: 345). Vergílio Ferreira afasta-se, pois, da “morte do autor” de Barthes, Foucault e Derrida, e da anulação do sujeito, não concordando, tão-pouco, com a tese foucaultiana, de que “não é o sujeito que pensa, mas o Sistema por ele” (1993: 269).

Nas páginas do diário reflete os principais acontecimentos europeus no período histórico abrangido pelas duas séries da Conta-Corrente (1969-1985 e 1989-1992), o mesmo sucedendo em Pensar (1990) e Escrever (2001). A queda do Muro de Berlim, em finais de 1989, e o posterior desaparecimento da União Soviética são festejados com a alegria de quem vinha, há muito, combatendo o comunismo de modelo soviético. O terramoto político da Europa de Leste traz ao seu humanismo, aliás, uma renovada esperança: “E todos enfim irão reconhecer que o Mundo vai recomeçar. E que o homem estará no centro do recomeço, para haver recomeço e haver mundo” (1993a: 270). A entrada de Portugal na Comunidade Europeia, o tratado de Maastricht e a participação europeia na primeira Guerra do Golfo são outros motivos de reflexão em várias entradas da Conta-Corrente. Mas, contrariamente ao amigo Eduardo Lourenço, não considera que a Guerra do Golfo já estava “de certo modo perdida antes de começada” (Lourenço 1994: 90) para os Estados Unidos e, sobretudo, para a Europa que aí terá um confrangedor papel secundário. Para Ana Paula Coutinho, o autor de Em Nome da Terra não acredita, a partir de determinado momento, “na capacidade de a Europa se impor em termos de geopolítica mundial, e isso não exactamente por falta de recursos materiais, mas por causa do ‘nihilismo endémico’ da sua intelectualidade” (2017: 157). Conclui, de qualquer modo, que “foi um dos escritores contemporâneos que mais se deixou inquietar por uma ‘ideia da Europa’ – à medida, é claro, de certos matrizes e experiências, ou seja, de acordo com as circunstâncias e os limites de um intelectual português/europeu do século XX” (idem: 163-164).  Ora, para Vergílio Ferreira, a “Europa não é tanto uma questão geográfica como uma questão espiritual” (1987: 548), pelo que, apesar da sua vetustez, nunca abandona a esperança no homem europeu e na sua capacidade de renascer das cinzas, como nunca abandona a ideia da Europa enquanto “capital do Mundo” (1993a: 57).

 

Antologia

“Nós temos de voltar ao princípio, Cláudio, nós temos de voltar a nascer. E a Grécia é o lugar próprio para isso. Não a Grécia dos cartazes, não a Grécia da Sofia e de certos poetas turísticos. A Grécia já toda a gente sabe de cor. Eu mesmo, Cláudio, que é que sei da Grécia? Mas o importante é saber-se sem se saber, como se é português, sem se perceber que se não goste de fado. O que é importante é ter-se por exemplo a evidência de que a mitologia não é mitológica. Nós devíamos aprender a ser gregos como Montaigne aprendeu o latim, julgando que era a língua materna” (1987: 140-141).

“O grande problema para mim é o futuro da Europa. E para a sua base entendi que ele se cinja a uma questão de gente nova. O meu livro [Em Nome da Terra] passa-se num lar de idosos. Foi o que visionei há 25 anos no romance Alegria Breve e que eu dei no artigo para o Lisboa como resposta antecipada e antecipada previsão do artigo do Fukuyama. Há 25 anos eu relacionara aí o fim da guerra com o das ideologias, a salvação da arte, uma Europa de velhos – na demografia e na consumpção das ‘ideias’” (1993b:16).

“Europa Europa. Curiosamente todos agora se põem a reflectir sobre o seu destino. Económico político cultural. Mas é neste que menos se pensa e é o que mais nos incita a pensar. Há todavia uma falha no pensar generalizado dos outros e é que não dizem que pensar na cultura europeia é reflectir sobre o destino do mundo, ou seja de toda uma civilização. Porque o que está em causa não é um arranjo político e o mais da humanidade, mas o da recuperação do que a orienta no subsolo de si. Será difícil, com uma Comunidade Europeia, articular a força das nacionalidades, que é ainda um mito a governar-nos por ser o do nosso orgulho, com uma orientação supranacional, que é feito da abdicação de uma parte de nós. Defesa do Velho Continente, face à supremacia de outros países como a América ou o Japão, ela entende-se bem na nossa condição de fidalgos á beira da pobreza. Mas o grande problema é o da descoberta do que nos unifique a alma e lhe dê o que é decisivo e se chama justamente a ‘força anímica’. O igualitarismo do destino europeu no que se refere ao que lhe é exterior, não necessita muito de arranjos porque lhe é uma fatalidade. (…) O que está verdadeiramente em causa é a criação de uma Europa agnóstica com uma alma devoluta, sem um valor que a habite. O que está em causa imediatamente para esse agnosticismo é a ameaça islâmica, com a sua religião a anunciar-lhe essa ameaça. É duvidoso que Maomé tenha aposentos em todo o coração árabe. Mas estando em quase todos, está nos outros o seu sonho de grandeza que a memória não esqueceu e o substitui. (…) Mas a Europa não tem um valor a organizá-la e a multiplicação de seitas e crendices – e mesmo alguma religiosidade – são a demonstração não de uma crença mas de um desespero. (1994: 235-236)

 

Bibliografia ativa selecionada

FERREIRA, Vergílio (1963), Apelo da Noite, Círculo de Leitores, 1989; Espaço do Invisível (1965), 2.ª ed., Arcádia, 1978;

— (1969), Invocação ao meu Corpo (1969), 3.ª ed., Venda Nova, Bertrand Editora, 1994;

— (1977), Espaço do Invisível 3 (1977), 2.ª ed. Venda Nova, Bertrand Editora, 1993;

— (1987), Até ao Fim, 2.ª ed., Venda Nova, Bertrand Editora;

— (1990), Em Nome da Terra, Círculo de Leitores, 1991;

— (1987), Conta-Corrente 5, Bertrand Editora, 1987;

— (1993a), Conta-Corrente Nova Série I, Venda Nova, Bertrand Editora, 1993a;

— (1993b), Conta-Corrente Nova Série II, Venda Nova, Bertrand Editora, 1993b;

— (1994), Conta-Corrente Nova Série III, Venda Nova, Bertrand Editora, 1994.

 

Bibliografia crítica selecionada

COUTINHO, Ana Paula, “Vergílio e a Europa: um escritor a pensar em cont(r)a-corrente”, in Vergílio Ferreira – Escrever e Pensar ou O Apelo Invencível da Arte, org. Coutinho, Ana Paula et alli, Âncora Editora, 2017: 151-165;

LOURENÇO, Eduardo, A Europa Desencantada – Para uma Mitologia Europeia, Visão, 1994;

MOURÃO, Luís, “Vergílio Ferreira ou o romance reflexão. Uma introdução longínqua a Cartas a Sandra”, in Sei que Já Não, e todavia ainda, Angelus Novus, 2003, 55-73.

Jorge Costa Lopes

 

Como citar este verbete:
LOPES, Jorge Costa (2018), “Vergílio Ferreira”, in A Europa face a Europa: prosadores escrevem a Europa. ISBN 978-989-99999-1-6.
http://aeuropafaceaeuropa.ilcml.com/pt/verbetes/vergilio-ferreira/