MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA

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MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA

(1923-1980)

Mário-Henrique Leiria Batista nasceu em Lisboa a 2 de janeiro de 1923, onde também viria a morrer a 9 de janeiro de 1980. Destacou-se no panorama artístico e literário português do século XX ao tomar parte das atividades do Grupo Surrealista Dissidente, ao lado de Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Carlos Eurico da Costa, Henrique Risques Pereira e António Maria Lisboa, e participou nas duas exposições coletivas de 1949 e 1950. Mário-Henrique Leiria teve desde cedo uma ligação conturbada com o Estado Novo: foi preso várias vezes ao longo da vida, tanto em Portugal como posteriormente no Brasil, para onde se autoexila em 1961 e de onde regressa mais tarde, nos anos ‘70.

A sua obra poética e ensaística foi compilada pela E-Primatur numa série de três volumes, publicados entre 2017 e 2019, sendo que até então somente alguns textos de ficção haviam sido tornados públicos em vida: é o caso dos emblemáticos Contos do Gin-Tonic (1973) e Novos Contos do Gin (1974), para além de Imagem Devolvida: poema-mito (1950), obra poética e visual que sobreviveu à censura do regime e somente veio a público nos anos ‘70. Postumamente, Depoimentos Escritos, Contos, Poemas e Cartas de Amor foram publicados em 1997 e Casos de Direito Galático e Outros Textos Esquecidos em 2016. Como explica Tania Martuscelli, o incessante ímpeto experimentalista que norteia a produção de Mário-Henrique Leiria no período de 1949-52 sofre um amadurecimento, na qual assistimos à passagem de uma posição «delirante» para uma postura de caráter mais “ideologizante” (Martuscelli 2006: 6), no qual o poeta está particularmente atento a questões de ordem político-social. Contudo, nunca perde as características que permitem identificá-lo como artista de vanguarda, irreverente e audacioso: “o Leiria do gin tonic experimentou diversos outros drinks que lhe serviram de ‘aperitivo’, num movimento de maturação do que o tornou conhecido como contista rebelde, denunciador de barbaridades, forte, de humor ácido e embriagador” (idem: 15).

O discurso poético de Mário-Henrique Leiria atinge diversas vezes uma dimensão crítica e fortemente contestatária das adversidades do seu país e do mundo, fruto de uma experiência de vida traumatizante. É durante a sua passagem por países da América Latina, do Médio Oriente e da Europa Ocidental entre 1952 e 1961 que temos acesso a um fluxo crítico mais abundante na sua produção, ligado a experiências e aventuras que viveu. Estas surgem expressas em poemas diversos – alguns deles sob a denominação de “notas de viagem” (Leiria 2018: 251-254).

No poema intitulado «E a Europa», datado de julho de 1970 – período em que ainda vivia exilado em São Paulo –, Mário-Henrique Leiria produz uma reflexão que articula simultaneamente o velho continente e Portugal: não descurando o mecanismo paródico utilizado pelo poeta, que imediatamente remete para o primeiro poema de Mensagem, “O dos Castelos”, tanto Pessoa como Leiria fazem uma apropriação da epopeia camoniana Os Lusíadas. Esta estratégia alusiva, utilizada por Leiria em diversas ocasiões, reproduz a imagem de uma Europa decadente, ainda presa às suas origens gregas e às conquistas de um passado glorioso, remetendo, assim, para a passividade da nação portuguesa face às contrariedades históricas e políticas do século XX e para a necessidade de um “renascimento” do velho continente através de uma revolução levada a cabo pelo próprio povo:

E a Europa
depois de criar o mundo
deitou-se, lassa
e, deitada, repousou.
E o rosto dela,
vertical, profundo,
fitando o mar distante e fatal,
olhou a imensidão.
O olhar com que fita a solidão
é Portugal.
(Mário-Henrique Leiria)

Num outro poema de novembro de 1969, “facto diverso”, quando se encontra já exilado em São Paulo, o poeta viaja pelas memórias de uma vida passada entre várias partes da Europa, ao mesmo tempo que pondera sobre a impossibilidade de renunciar às suas origens, mesmo durante o período em que é obrigado a abandonar Portugal devido à conjuntura política ditatorial:

Sentei-me sempre tive esse costume
e fiquei a olhar inquisitivo para a Europa
donde nunca consegui sair
mesmo quando pareço estar remotamente longe (Leiria 2018: 327)

Enquanto crítico audacioso do seu país – socialmente hierarquizado e lidando com décadas de subalternidade perante outros países europeus –, no poema “nós somos…” Leiria dirige a sua atenção para a condição precária do ser humano e as dificuldades enfrentadas por uma nação de homens corajosos, cujos nomes acabam totalmente ignorados ou esquecidos na linha do tempo:

nós somos inúmeros
desconhecidos
feitos de revoltas e de lutas
nós somos inúmeros
feitos de sangue e de combates
nós somos todos os de nome ignorado
(…)
folhas ignoradas duma árvore
que no tombar       verticais       belas
vêm fecundar a raiz
de outras árvores por nascer (Leiria 2018: 176)

Este poema, marcado por um pessimismo latente e pela sensação de derrota face ao sistema, contrasta com outros casos em que o discurso de Mário-Henrique Leiria conjetura um potencial incentivo à revolta dos companheiros de geração, para que estes contrariem a “obediência inútil e servil / (…) cumprindo surdas ordens de ódio e mentira” e lutem; o poeta mantém a esperança de que estes “ergam as mãos de punho bem cerrado/ queimem os deuses/ e os mitos que nos deram” (idem: 258).

De facto, já num poema de 1942, Leiria havia criticado aquele que considerava ser o “desejo eterno” que orienta e define a ação potencialmente destrutiva do ser humano muito antes dos primórdios da civilização tal como a conhecemos, nomeadamente a necessidade de combater e matar. No caso da Europa, vemos que a sua história está marcada por uma diversidade de processos traumáticos, nos quais vidas se perderam em prol de uma noção de progresso e conquista alcançada através da guerra e do sacrifício humano. Contudo, apesar da forte posição ideológica que Leiria adota regularmente no seu discurso, fruto de ter sido desde sempre um revolucionário do sistema ditatorial e crítico da asfixia do sistema pidesco, existe neste poema uma notável “quebra na expectativa do leitor”, segundo Tania Martuscelli (2006: 57): o incentivo ao combate e à luta pela liberdade dá lugar à constatação do deslumbramento do homem perante uma falsa ideia de morte e de guerra como ferramentas de conquista, e demonstra o poder supremo do tempo sobre a efemeridade dos feitos bélicos:

Afinal para quê tanto lutar?
Quando o homem que hoje foi poderoso
for banquete de vermes, imundície e podridão,
o mundo continua a girar
o tempo passa,
e o homem nada conseguiu
no seu desejo eterno
de ilusão. (Leiria 2018: 247)

A magnitude da escrita de Mário-Henrique Leiria não se limita à faceta de contista arguto e audaz, pela qual é mais conhecido do público: os poemas mencionados são prova de uma colossal erudição do poeta e de uma consciência muito sofrida sobre a travessia histórico-cultural da Europa e do mundo, fruto também do trabalho enquanto tradutor e editor.

 

Lista de poemas sobre a Europa

– “E a Europa”, Obras Completas de Mário-Henrique Leiria: Poesia (2018)
– “facto diverso”, Obras Completas de Mário-Henrique Leiria: Poesia (2018)
– “nós somos”, Obras Completas de Mário-Henrique Leiria: Poesia (2018)
– “desejo eterno”, Obras Completas de Mário-Henrique Leiria: Poesia (2018)
– “intermédio parisiense”, Obras Completas de Mário-Henrique Leiria: Poesia (2018)
– “notas de viagem”, Obras Completas de Mário-Henrique Leiria: Poesia (2018)
– “canção do mundo novo”, Obras Completas de Mário-Henrique Leiria: Poesia (2018)
– “britania rules”, Obras Completas de Mário-Henrique Leiria: Poesia (2018)

 

Antologia breve

facto diverso
Discretamente fui ontem almoçar
ao lado do meu túmulo
levei para o acto um ramo de papoilas
que guardava em casa há cerca de oito anos
para qualquer momento circunstancial
(sempre me considerei digno e respeitador
dos insultantes bons costumes)

Lá estava gravado na pedra de Estremoz
EUROPA – MAIS UM DIA
era certo e fora um trabalho bem eficiente
em elzevir escolhido e sem defeito

Sentei-me sempre tive esse costume
e fiquei a olhar inquisitivo para a Europa
donde nunca consegui sair
mesmo quando pareço estar remotamente longe
fiquei a olhar para São Paulo
fantasma abúlico mal traduzido do americano
que se apaga triste e sem figura
com a presença real e muito nítida
de Londres de Paris de Moscovo
de Lisboa menina sorridente e milenária
(…)

in Obras Completas de Mário-Henrique Leiria: Poesia (2018: 327-330)

desejo eterno
No mundo o primeiro homem apareceu.
E com ele nasceu
a ânsia, sempre insatisfeita,
de lutar, de combater,
de dominar.
Os tempos rodaram.
As civilizações passaram.
Agora as multidões caldaicas
depois os exércitos do Egipto de Dáris
avassalaram toda a terra
na fúria eterna do domínio,
da guerra.
Milhões de homens pereceram.
Impérios famosos desapareceram
mas o desejo de lutar continuou.
(…)
E hoje, como ontem, como sempre,
o homem matará.
Desejo que nasceu com o primeiro
e só com o último
morrerá.
Afinal para quê tanto lutar?
Quando o homem que hoje foi poderoso
for banquete de vermes, imundície e podridão,
o mundo continua a girar,
o tempo passa,
e o homem nada conseguiu
no seu desejo eterno
de ilusão.

in Obras Completas de Mário-Henrique Leiria: Poesia (2018: 247)

canção do mundo novo
Entre eternos dias de poeira
entre noites imensas de ferrugem
bebendo a cinza que nos dão por vida
cuspindo nevoeiros de silêncio
de mãos amarradas pelo medo
e bocas sufocadas pela sombra
com os pés viscosamente presos
num solo de pântano e repulsa
olhos perdidos e sem luz
reflectindo apenas um remoto horizonte
a desfazer-se em treva

assim vamos quotidianamente

mastigando sem força a própria cobardia
afagando a vergonha podre em que vivemos
entre uma longa interminável
estrada de baionetas
na obediência inútil e servil
a uma voz sem rosto e sem presença
cumprindo surdas ordens de ódio e mentira
marchando sem razão e sem destino

assim vamos quotidianamente
(…)

in Obras Completas de Mário-Henrique Leiria (2018: 257-258)

 

Bibliografia ativa selecionada

LEIRIA, Mário-Henrique (2018), Obras completas de Mário-Henrique Leiria: Poesia, ed. Tania Martuscelli, Lisboa, E-Primatur.

 

Bibliografia crítica selecionada

MARTUSCELLI, Tania (2006), A Poesia Portuguesa dos Anos 30 aos Anos 70: Mário-Henrique Leiria inédito, Tese de Doutoramento em Filosofia, Universidade de Massachusetts.

Ana Isabel Santos

Como citar este verbete:
SANTOS, Ana Isabel (2022), “Mário-Henrique Leiria”, in A Europa face a Europa: poetas escrevem a Europa. ISBN 978-989-99999-1-6.

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