CARLOS EURICO DA COSTA

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CARLOS EURICO DA COSTA

(1928-1998)

Carlos Eurico da Costa nasceu em Viana do Castelo, em 1928, e morreu em Lisboa, em 1998, onde passou a maior parte da sua vida. Integrou o Grupo Surrealista Dissidente entre 1949 e 1952, período no qual a sua produção artística foi mais abundante, e assinou alguns textos e manifestos coletivos do movimento. Participou na primeira Exposição dos Surrealistas, em 1949, junto de nomes como Mário Cesariny, Henrique Risques Pereira, Artur do Cruzeiro Seixas, Pedro Oom, Fernando José Francisco, António Maria Lisboa, Fernando Alves dos Santos ou Mário-Henrique Leiria, e deste período ficaram célebres um vasto conjunto de cadavres-exquis, pinturas coletivas e desenhos automáticos onde predomina o fantástico e o estranho, e que atualmente integram a coleção do Centro Português do Surrealismo da Fundação Cupertino de Miranda, em Famalicão. Da sua obra de inspiração surrealista, e mais irreverente, destacam-se a série de ilustrações de Grafoautografias (1949) e a coletânea de Sete Poemas da Solenidade e um Requiem (1952), bem como A Cidade de Palagüin, publicada mais tarde, em 1979. Afasta-se do grupo em 1952 para se dedicar ao jornalismo, tendo colaborado em publicações da Seara Nova, Árvore, Serpente, Diário de Notícias, entre outras, para além de ter sido técnico de relações públicas e publicidade e crítico cinematográfico.

A partir dos anos ‘50, a poesia de Carlos Eurico da Costa sofre um processo de mutação e amadurecimento: As Aventuras da Razão, de 1965, marca a transição de uma produção ligada à descoberta do imaginário e experimentalismos linguísticos para uma poesia de caráter mais lúcido, assertivo e atento, norteada por preocupações próximas de um programa neorrealista e por uma clara distinção do que é da ordem do real e do sonho. Mais tarde, em A Fulminada Imagem, de 1968, vemos que para o poeta o Homem e o mundo estão unidos na sua essência. Aqui, adota uma postura mais ética, bem como um discurso político que reflete sobre as injustiças da vida em sociedade e a desconsideração desta perante o trabalho do poeta, no sentido mais amplo. Subsistem, contudo, as flamejantes imagens de associações imprevistas que reivindicam a imposição da realidade poética sobre o real tal como o conhecemos.

Ao viajarmos por entre os poemas reunidos n’As Aventuras da Razão e A Fulminada Imagem, notamos a ausência de um pensamento concreto relativamente a temáticas e questões sobre a Europa, não tendo esta sido uma clara prioridade para o poeta. Contudo, o primeiro poema do livro de 1965 – e que lhe empresta o título – permite desde logo identificar um compromisso de cariz social e político através da alusão à Batalha do Marne, em setembro de 1914, durante a Primeira Guerra Mundial. «As Aventuras da Razão» é caraterizado por um forte fluxo narrativo e descritivo sobre a guerra, as condecorações que advêm das vitórias, a degradação física e moral que permeia todo o acontecimento e sobretudo a sombra da própria morte, no momento em que o sujeito poético se dirige a um dos intervenientes:

Soldado
Este ardor feito de espuma e cristais
O gatilho diluído nas mãos
A Europa à espera
Recordas a morte
Inglória e insuspeita
Num estertor metálico
De sólida retirada (Costa, 1965: 8).

Este excerto, à semelhança de quase todo o poema, constrói-se com base num discurso traumático que reage a experiências de excessiva violência alusivas. Refere-se a alguém que vive em estado de guerra e ilusoriamente alimenta a «antiga infusão de gerações», «fermentando a razão de romanos e gauleses» (ibidem). Na memória da Humanidade vive uma Europa marcada pelo trauma da guerra, ou, segundo o poeta, pelos «furores da ilusão» (ibidem) a ela associados. Este tema retorna no livro de 1968, no poema «Em Tuy», ao identificarmos a referência à Guerra Civil Espanhola e ao rasto de morte que deixou, bem como a lembrança de um «itinerário de dor» e do «eco das descargas» (1968: 5).

No prefácio de Sete Poemas da Solenidade e um Requiem, com o título «A volta do filho prólogo», Mário Cesariny alerta-nos desde logo para a «consciência plena – europeia e mais que isso porque é do homem» (Cesariny, 1952: 5) na poesia de Carlos Eurico da Costa, remetendo para um sólido entendimento da parte do poeta sobre a violência no mundo, a luta contra a obstinação, o conformismo do ser humano e a sua alienação em relação à própria passagem do tempo. No poema «I», o poeta afirma que vivemos «alheios da nossa validade» (Costa, 1952: 7), presos a tradições petrificadas no «banho de cinzas da nossa existência» (ibidem) em comunidade.

A poesia de Carlos Eurico da Costa cria um discurso de resistência, uma forma hermética de combate à violência política e social da época (tanto em contexto fascizante, como inserida numa Europa desgastada pela memória das guerras), mas também à própria mercantilização da sociedade, da poesia, das artes e das relações humanas. Apesar de não dirigir a sua atenção particularmente para o continente europeu, a posição assumida pelo poeta pode ser interpretada por meio do viés realista que a sua obra assume nos anos 1960; nem sempre chegamos a ver nitidamente os espaços aludidos nos poemas, mas há uma certa errância urbana, associada a uma experiência emocional de dimensão política e social. A dificuldade da poesia de Carlos Eurico da Costa passa também pelo confronto com uma linguagem metafórica, sublimada e requintada, um discurso lúcido, de expressão pouco visceral, que nem por isso deixa de emergir de um contrato realista resultante de uma vivência profunda das coisas, das emoções, das cidades e das sociedades. No primeiro poema de A Fulminada Imagem, «De viseira erguida», identificamos a ausência de um programa político na sua poesia, mas permanece uma preocupação com os menorizados e desprezados, um sentimento de empatia para com a condição humana:

Um homem empresta
O que de homem em
Si há ou houvera
Porque para este
Momento só macho
Tanta humilhação
Suportar pode
Íntegro ou não
Homem apenas
Com tudo o que sua condição
Obriga ou teme
Fazendo da carne
Um gemido de coragem (1968: 1).

A referência à Europa torna-se mais visível no poema «Colar de fogo», no momento em que o poeta descreve o «antigo continente de águas indomáveis» (ibidem: 28) como uma «conjugação de supliciados», remetendo mais uma vez para o sofrimento e a dor de um tempo de miséria e conflito.

Este conjunto de acontecimentos e circunstâncias históricas é recorrente na escrita de Carlos Eurico da Costa, e assume-se sobretudo tanto como um testemunho oriundo da necessidade de conservar a memória de conflitos bélicos do século XX, como uma prova de lucidez do poeta no momento em que alude ao rasto sanguinário da Europa, transparecendo uma dura consciencialização da permanência de experiências traumáticas na memória cultural do mundo.

 

Lista de poemas sobre a Europa

«Colar de Fogo», A Fulminada Imagem (1968)

«A labareda ascendente superando as auroras desvendadas», Sete Poemas da Solenidade e Um Requiem(1952)

«As aventuras da razão», As Aventuras da Razão (1965)

«A forma e o tempo», As Aventuras da Razão (1965)

 

Antologia breve

A execução

Morres na manhã
Crispado no teu ceptro
De grades e ironias
Morres com a tranquila dor
De ver a nossa vida
no cadinho da escória.

A tua luta
É um memorial emplumado
Inerte no nevoeiro dos paúis.
Morres na manhã
Para te esquecermos depois
Cambaleando neste sono
De suspiros sulfurosos
Entre os laços do assalto
Que nos vitima.

in As Aventuras da Razão (1965: 23)

Descoberta Atlântica 

1.

Sulca o iodado fluir do vento
O clavicórdio do amanhecer longínquo
Martelando a agonia insone e lenta
Da nossa contemplação

Nos cerros da terra gretada
Aspiram a infame flora
Com dor acre lentidão
Como se fora densa
Esta cortina de tempo alucinado
Aqui vivido
Gestão informe e diluente
De portugueses a devorar silêncio

Erguidos ei-los
Na sua panóplia de âncoras
Arca que se dissolve em profunda água
A mão trémula
Grito que o gesto guarda
No peito submetido

Armas que se cruzam e desfazem
No granito com têmpera de idades
Apostando o destino no fulvo
Lento entardecer

(…)

in A Fulminada Imagem (1968: 23-25)

 

II

Os grandes barcos de granito azul avançam
marcando a sua época
No mar
as velhas canções de música
petrificadas por estrelas velocíssimas
são a origem dos grandes ciclones
(os jornais asseguram-nos a sua existência)
e nestas montanhas conscientes da sua fragilidade
os cegos rosados
lutam no bar das estátuas mitológicas
esgrimindo agilmente as facas

Hoje repousaremos na rua deserta
os pequenos maquinismos de anulação do tempo
bem firmes entre os dedos
como anéis circunvalatórios
até que um sulco de areia penetre o mar e tinja as águas
e neste pequeno café da praia
surjam outros homens indicando a fúria das ondas
e dos rochedos que são a nossa maneira
de descobrir veículos de amor

(…)

Creiamos
Mas o frio desta geada de actos convenientes
acorda a hora do universo
a hora imperturbável de toda a fixação dos actos
mesmo dos que esqueceremos
quando os rios apagarem o sangue desta geração
das palavras de medo que não pronunciaremos
no banho de cinzas da nossa existência

in Sete Poemas da Solenidade e um Requiem (1952: 11-13).

 

Bibliografia ativa selecionada

Costa, Carlos Eurico da (1952). Sete Poemas da Solenidade e um Requiem. Lisboa, Árvore.

— (1965). Aventuras da Razão. Lisboa, Livraria Morais.

— (1968). A fulminada imagem. Lisboa, Estampa.

— (2004). Cadernos 3 – Carlos Eurico da Costa: poemas. Vila Nova de Famalicão, Fundação Cupertino de Miranda.

 

Bibliografia passiva selecionada:

Vasconcelos, Mário Cesariny de (1952), “A volta do filho prólogo”. Prefácio. In: Costa, Carlos Eurico da, Sete Poemas da Solenidade e Um Requiem. Lisboa, Árvore: 5.

 

Ana Isabel Santos

Como citar este verbete:

SANTOS, Ana Isabel (2021), “Carlos Eurico da Costa”, in A Europa face à Europa: poetas escrevem a Europa. ISBN: 978-989-99999-1-6.