MARTIN BIERI

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MARTIN BIERI

(1977 – )

Martin Bieri nasceu em Berna, cidade onde vive e trabalha. Dramaturgo, tradutor e jornalista, escreve sobre arte e futebol. Trabalhou em vários teatros, como o de Lucerna e o Theater Neumarkt em Zurique. Publicou, em 2015, um livro de poemas, Europa, Tektonik des Kapitals, que recebeu o prémio do Cantão de Berna em 2016 e o da cidade de Berna em 2017.

A “europa” de Bieri não é uma viagem idílica e romântica pela Europa, antes pelo contrário, apesar de, nos 66 poemas, ter alguns momentos de beleza. Alguns estão subdivididos, como o da Europa, o da Suíça ou o dos Alpes. Trata-se duma viagem em forma de espiral, indiciada por um número a seguir ao título: começa por “Murmansk/2830” e termina por “0:00”, sendo que os números representam os quilómetros desde Murmansk até Berna, a cidade do Eu lírico. Trata-se duma viagem virtual, não linear, e, como toda a viagem, tem muito a ver com a memória, colectiva e subjectiva. Mas neste caso, nota Schulze, esta viagem é sobretudo “fornecedora de impulsos, de imagens volantes e incompletas” (Schulze 2015). Alguns espaços não são mencionados nem no título nem no poema, limitando-se às indicações quilométricas. O autor opta por uma ideia geográfica da Europa, ainda que todas as linhas apontem para o próprio autor, sentado na sua secretária em Berna (do Eu lírico e do autor). O espaço e o que nele se passou, a nível político (os constantes conflitos, aproximações e distanciamentos), na sua enorme diversidade linguística (apesar das origens das línguas europeias serem essencialmente indo-europeias, para além de algumas línguas fino-úgricas), cultural (influências permanentes nos diversos campos das artes (plásticas, literárias, cénicas, musicais, na arquitectura, etc.), religiosa (com um predomínio essencial das religiões cristãs e da herança judaico-cristã, hoje palco de alguma mutação) e até gastronómica. Não se trata da União Europeia, mas do espaço europeu na sua globalidade geográfica. A Europa é, assim, sinónima de diversidade num espaço único, apesar da sua grande dimensão. É, nas palavras de Lerch, uma “percepção da paisagem”, na linha de outros trabalhos de Bieri, como na sua tese de doutoramento sobre o papel da paisagem no universo do teatro da companhia ‘Schauplatz International’.

Em Neues Landschaftstheater (2012, trata-se de uma desconstrução do tempo e do espaço (Lerch 2015: 1). É a Europa do dinheiro, das auto-estradas, dos transportes, das políticas energéticas, da burocracia, da globalização. São, como nota Stefan Schmitzer, ‘poemas realistas’, mas que representam um caminho do exterior para o interior (Schmitzer 2015; também Schulte 2015).

Os poemas não deixam de ligar cada espaço ao seu contexto histórico, para além da realidade contemporânea. O subtítulo deste livro aponta para a tectónica do capital. É este aspecto da Europa que está no centro das atenções: o capital é a grande força que domina a realidade europeia, que também acaba por dominar o sujeito, que sofre, consciente ou inconscientemente, as consequências do mundo em que vive. Deste modo, o mapeamento europeu presente neste livro deixa de ser só geográfico/geológico/histórico, mas de crítica ao sistema em que se vive, como é referido por exemplo, nos poemas ‘Suíça’, onde surgem o nome de várias multinacionais, sediadas naquele país, como muitas outras que servem essencialmente os interesses do capital. A tectónica de placas explica a formação da terra por placas que estão em movimento, que podem dar lugar a catástrofes quando se movimentam, na chamada deriva continental. Isto é, o capital assenta em placas inseguras, ainda que aparentemente, tudo parece bem e num modo sustentável. Daí o clima negativo de quase todos os poemas, com perguntas a que não se oferecem respostas, uma vez que elas são dirigidas ao leitor para ele as descobrir ou para que ele possa reflectir.

Os poemas são como que diálogos com um ‘tu’ constantemente referido, que, segundo Rothenbühler, se aplica quer ao próprio autor em diálogo com o computador, através do qual efectuou esta viagem (Rothenbühler 2021). O traço dominante é o da melancolia, da tristeza por causa da destruição da natureza pelo homem, sempre à conquista de novos espaços. Exemplo são as frequentes referências às auto-estradas, nacionais (A) e europeias (E), símbolos da Europa em rede, com rápidas deslocações (ETK 17, 40, 66, 67), à energia atómica, que o Eu vê de uma auto-estrada na Suíça (ETK 67), à destruição de um bairro de Istambul (o bairro Tarlabasi, destruído para aí serem construídas habitações luxuosas (ETK 9) ou o enterramento do rio Senne em Bruxelas (ETK 30). As auto-estradas são exemplo da velocidade e facilidade de deslocação, tal como o capital. As referências às belezas ‘turísticas’ são raras, pelo contrário as referências aos turistas, último símbolo de uma falsa utopia, que tiram fotos, indiferentes às tragédias que se escondem por detrás delas, desde os imigrantes que atravessam o Mediterrâneo à procura de alguma dignidade ou dos suicídios, nos Alpes, das pessoas cansadas da vida (ETK 10, 72). E se à superfície surgem quase exclusivamente aspectos negativos, é claro que estas perguntas e factos nomeados servem para questionar o leitor. Aqui reside o outro lado da tristeza, o da esperança que pode residir nas eventuais respostas dos leitores (Rothenbühler 2021). Porque na base dos textos está uma crítica ao desenvolvimento da Europa. Está um vazio provocado por palavras, mas que não esconde a possibilidade, ainda que remota, de algum consolo, alguma melhoria. Nas palavras do autor, retiradas da sua página web, o livro “representa uma memória arqueológica do futuro de um continente”.

Antologia breve

De Europa, Tektonik des Kapitals (trad. de Helena Topa)

EUROPA

1
Proteção da natureza, crescimento descontrolado e a beleza da especulação.
Infestação também seria uma boa metáfora, invasão, etc.
Mas é só arquitetura, está descansado, casas para as férias.

Descansam: os velhos, os novos. Muita coisa houve, muita coisa há de haver.
Turismo, a última utopia europeia da boa vida, é o que tu pensas,
e também pensas que nunca mais vais querer pensar: «parece pintado».

Mesmo assim tira uma foto. Aqui do ziziphus lotus, vem de África,
olha que nome. Mas também não o tomes por outra coisa.
Nada é simbólico. Aqui só há a paz e o mar Mediterrâneo.

A costa da Andaluzia ao entardecer. É isto que é retemperador aqui:
Eles chegam com as últimas forças e o coração vazio. E nós ficamos no retrato
desta catástrofe continental simplesmente como os idiotas em pano de fundo.

2
Isto chegou um pouco de repente, este mandato. Polónia, Varsóvia,
era aqui que devia ficar agora a ponte de comando para a manutenção
da identidade de um estar dentro, de uma coesão fugaz, era aqui.

Refugiado tornou-se, nestas condições, uma palavra em língua estrangeira.
As consequências da boa gestão da FRONTEX: Libertas, Securitas,
Iustitia. Não compreender também não é aqui, pensas tu, uma metáfora.

A Polónia, recém-chegada ao império do medo, venceu o seu próprio medo;
depois o visitante escreve o nome de uma localidade na bandeira branca:
Uma fronteira de terra (verde), uma de água (azul), uma de ar (invisível).

Ao todo um olho, vês como se agita diante do prédio de vidro por trás
do palácio da cultura? Antigamente pendia junto ao velho estádio. A colocação contava.
A degradação do nacionalismo. Em breve estará reconstruído. Era um bom lugar.

[…]

5
Alfaces e Revillard, também os reencontras no meio do mar de plástico de Roquetas
de Mar, que se transformou num ícone do pensamento dilemático,
eficiência e destruição reunidas em beleza fragmentária.

Fragmentária porque uma lona se segue à outra, um parcela a outra parcela, porque
um monte em socalcos se parece com uma pirâmide em construção, em desconstrução.
Outra vez Andaluzia, exploração, África, que se presta à estética.

Quer dizer: esta vista não te lembra um manto de nuvens baixas, que
tu, vendo de cima ou de baixo, associas tanto ao estar em casa?
Por um lado, como opressão, por outro, como utopia. Mas são estufas apenas.

O abastecimento e o desespero do continente crescem nestes lugares, é neles
que ele é cultivado: Almería, El Ejido, Roquetas de Mar. Cada centímetro
de terra europeia é perigo e é lucro. Por fora e por dentro.

 

BIBLIOGRAFIA ACTIVA

Martin Bieri, Europa, Tektonik des Kapitals, Berlim, Lyrik Edition 2000, 2015.

 

BIBLIOGRAFIA CRÍTICA

Hanenberg, Peter, Isabel Capeloa Gil (eds.), Der literarische Europa-Diskurs, Würzburg, Königshausen & Neumann, 2013.

Lerch, Fredi, „Am Nullpunkt der Wörterspirale“, in journal-b, 5.3.2015 (www.journal-b.ch, consultado em 20.01.2021).

Rothenbühler, Daniel, „„Der Text folgt dem Genius loci“, CH-STUDIEN, Wroklaw, 4/2021 (no prelo).

Schmitzer, Stefan, „„Diese Kollokationb zählt.““, 15.07.2015, www.fixpoetry.com (consultado em 20.01.2021).

Schulte, Thorsten, „Ohne vall das kannst du leben, aber wie? Über Martin Bieris Gedichtband „Europa, Tektonik des Kapitals“, https://literaturkritik.de/id21659.

 

Gonçalo Vilas-Boas

 

Como citar este verbete:

VILAS-BOAS, Gonçalo (2021), “Martin Bieri”, in A Europa face à Europa: poetas escrevem a Europa. ISBN: 978-989-99999-1-6.